Minhas Folhas de Relva

percepções do cotidiano em letras livres

O começo e o fim das formalidades alemãs 07/12/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 3:12 PM

É incrível como a língua e suas regras refletem a mentalidade dos países onde é falada! Depois de passar a zona de arrebentação do mar revolto que é o aprendizado do idioma alemão, a gente consegue tomar fôlego para reparar em algumas curiosidades culturais. Como a questão da formalidade.

Em Português, usamos “senhor” e “senhora” para os mais velhos, em sinal de respeito. Em situações mais formais, de trabalho por exemplo, também é usado, mas só se a pessoa for de fato mais velha do que quem está falando, tipo, dos 40 pra cima (e aí ouvimos muito “não, por favor, me chama de ‘você'”). Mas é só.

Não é como no alemão, onde existe a diferença mais clara, entre “du” (informal) e “Sie” (formal). Na língua de Goethe (mais conhecido como “Guêti”), usamos “Sie” para os mais velhos, em situações formais (tipo atendimento, serviços, trabalho), com quem está acima de você numa hierarquia (chefe, professor…) e, em geral, com qualquer pessoa que você não conheça, independentemente da idade. Existem exceções, claro, depende do ambiente. Na escola, na universidade, num barzinho ou café mais descontraído dá pra chegar mandando um “du” logo de cara, mesmo que vocês não se conheçam. Mas é preciso ter tato, porque os alemães levam essa regra (relativamente) a sério.

Eu assisto a uma série alemã de comédia satírica policial chamada Mord mit Aussicht (literalmente “assassinato com vista” – entendo o que o nome quer dizer, mas ainda não consigo fazer uma tradução boa pro português rsrs). O espisódio que assisti hoje satiriza um pouco essa coisa da formalidade alemã (a costumeira rigidez e o apreço pela ordem, que fazem parte da mentalidade do país e, não por acaso, se refletem também nas complexas regras da língua), e me inspirou a escrever esse post.

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Herr Zielonka e Frau Haas

Dois policiais, um homem e uma mulher, ambos chegando nos 40, creio eu. Por causa do trabalho, eles sempre chamaram um ao outro de Sie (o que tem até verbo no alemão: “sietzen”). Agora, eles estão saindo e, no meio dos beijos, surge a pergunta:

_ Sag mal, können wir jetzt eigentlich Du sagen? [Me diga, podemos agora afinal dizer “você”?]
_ Du! [Você!]

Quer dizer… Eu fiquei imaginando os dois na cama, no rala e rola, dizendo um ao outro “Oh yeah, o senhor é muito bom!” ou “Nossa, a senhora é uma delícia…”. Não me surpreenderia vindo de alguns alemães rsrs.

Bem… na dúvida, é sempre melhor perguntar “Darf ich Sie dutzen?” [Posso chamar o (a) senhor (a) de ‘você’?]. Só espero que isso já tenha rolado antes de começarem os amassos😛

 

Destino 29/11/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 9:31 PM

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Perto do mar

a cabaça virou

balão

E na minha casa

decoração

Pendurado

nunca voou

Hoje na varanda

ele flutua

Virou comedouro

Perdeu tinta

pra chuva

Vai se desfazendo

aos poucos

Mas finalmente

ganhou

o céu

 

Doar e não vender 17/10/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 8:33 PM

O inverno tá chegando (pra mim, já chegou) e eu me lembrei, depois de alguns meses deixando o cabelo secar ao vento, de que eu precisarei tirar o secador do armário. Quem tem cabelo cacheado sabe como é de partir o coração secá-lo com secador. Fica uma bosta, frizado, sem brilho, sem definição, sem vida. O que ajuda é o difusor – que eu não tenho.

Daí, antes de começar a pesquisar preços, eu lembrei que uma coisa funciona muito bem aqui na Alemanha: os grupos de doação de coisas usadas. Nos vários que existem no Facebook, você posta lá o que você precisa e quem tiver, responde. Ou você posta fotos do que você quer doar e interessados comentam.

Fiz isso hoje de manhã. Postei a foto do meu secadorzinho de viagem e perguntei se alguém tinha um com difusor pra doar ou pra trocar pelo meu. Num deu nem um minuto uma mulher comentou e ofereceu o dela. Umsonst. Combinamos a retirada, peguei minha bike e voltei com um puta secador da Bosch e uma dica de sabonete supernatural pra lavar a cabeça. (Infelizmente não rola muita conversa, um small talk, mas as pessoas são gentis.)

freeyourstuffbonn

O post que me rendeu um secador novo – e depois levei um puxão de orelha de alguém do grupo, me avisando que a ideia é apenas doar e não trocar

Eu também já postei um pedido de tampa de vidro para frigideira. Deu certo. Pedi uma bolsa para máquina fotográfica, descolei uma e ainda comprei do cara uma mochila que ele tinha, que deu certinho para guardar todos os meus equipamentos de gravação.

Um amigo sírio mobiliou quase todo o apê assim. As pessoas doam coisas boas. Algumas vezes por ano (ou todo mês, não sei, até hoje não consegui sacar) existe o dia de deixar na calçada aquilo que você não quer ter mais em casa. Tem de tudo, de livros a objetos de decoração, de roupas a móveis. Tem gente que chega a zanzar de carro pelas ruas caçando e pegando coisas (certamente pra vender nos mercados de pulgas, que são muito comuns por aqui).

Me pergunto por que aqui na Alemanha as pessoas doam ao invés de vender. Nunca vi isso no Brasil. Estou num grupo em São Paulo de “Desapego” e isso não inclui doar. Nem que seja por pouco dinheiro, mas a galera vende. Qualquer coisa. Aqui não.

O Wanja acha que não tem nada a ver com os alemães serem mais, sei lá, legais ou conscientes do princípio da “partilha”. Ou menos consumistas. Pra ele, as pessoas precisam se desfazer logo das coisas porque estão de mudança ou compraram algo novo. Vender leva muito tempo. E querem abrir espaço exatamente por serem muito consumistas.

Mas, comparando com a gente no Brasil, os alemães se ligam menos em bens materiais e em status. Na média. Tem todo o lance de a casa própria não ser um sonho tão necessário quanto no Brasil, de aqui as pessoas não terem empregada doméstica e porteiro, de não ter mega-blaster-master buffet de festas infantis, de muita gente fazer tudo (ou quase tudo) só de bike, de não ter shopping center como os que existem no Brasil, onde você passa um dia inteiro dentro e perde a noção da hora.

Claro, se você pensa em Munique, talvez a cidade mais rica da Alemanha, onde o status grita mais nas ruas, a impressão seja outra. E os alemães, ainda que amem bicicleta, também amam muito seus carros e continuam alimentando a indústria automobilística, que sustenta boa parte da economia.

Mas ainda acho que existe algo no estilo de vida europeu, ou do centro e oeste europeus, que tem muito mais a ver com ser do que ter, com acumular menos e vivenciar mais – e é verdade que também acho que preciso comer ainda muito Sauerkraut com Bratwurst para entender como esse velho mundo funciona e por quê. O que você acha?

 

O que os olhos não veem, a mente aumenta 03/09/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 10:00 AM

Encontrei um cantinho à beira do Rio Reno, bem pertinho da água. Lá descansa uma pedra rasa, batida, lisa, quase um banquinho japonês, que te deixa a poucos centímetros do chão. E é lá onde eu tenho me sentado depois da caminhada matinal pra fechar os olhos na direção do Sol, relaxar e meditar. Uns 10 minutinhos, que seja.

Foi engraçado. Da primeira vez, eu e meus olhos fechados nos surpreendemos com um barulho. A calmaria do rio ficou meio revolta. Eram ondas. Os barcos que fazem transporte de carga, grandes e pesadões, ao passarem, transformam o rio em um tímido mar.

Mas, de olhos fechados, ainda não bem relaxada e muito menos em estado meditativo, eu não via o tamanho da onda. Mesmo sabendo que é só um leve avanço de água, o barulho tomou grandes proporções na minha cabeça. Parecia um Tsunami, ia me molhar toda. Inquietação. Mas calma, não é possível. Barulho continua, inquietação persiste.

Abri os olhos pra ter certeza do que não existia. Mas que na minha mente, enquanto o escuro dela era toda a realidade, fora muito real.

Ow, foi muito dahora percerber que vivenciei uma metáfora para as peças que a nossa cabeça hiperativa nos prega! Quantas vezes a gente não enxerga a realidade com o escuro da nossa mente que não consegue ver direito, num é???

Já me sentei várias outras vezes no banquinho talhado pela natureza. Da segunda, fechei os olhos, ouvi as ondas. A inquitação voltou, confesso. Mas falei pra mim mesma “calma, Aline. É só a mente vivendo o que não existe e dando chilique”. E enfim, relaxei.

 

Arrebentação 02/09/2016

Filed under: Cotidiano,Divã,Vida no exterior — Aline Moraes @ 4:14 PM
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praia da fazenda

Aprender inglês é como banhar-se na Praia da Fazenda. É tranquilo, familiar, você vai desde pequeno. Dá pé por bastante tempo. Só quando você quer mesmo ir bem mais adiante, depois de bastante avançar, já quase em Alto Mar, é que a areia deixa de tocar os pés. E muita gente acaba ficando só no raso mesmo.

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Já aprender Alemão é se aventurar na Praia da Sununga. Logo de cara tem onda forte, é desafiador, e você fica pensando “putz, isso não vai dar certo”. Mas você vai, toma uns puta caldos, fica com o bikini cheio de areia, se pergunta “qq eu tô fazendo aqui?!”. Daí, passada a arrebentação, você percebe que não dá pé, mas a água é mais calma, você nada, você boia, nada de novo e vai se sentindo muito forte por ter vencido o começo revolto. Olha pro horizonte e vê que tem muita água pela frente, mas medo você já não tem mais🙂

 

 

O sonho 12/07/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 9:32 AM

Foi dia 30 de Junho. De 2016. Um ano depois que aterrisei em solo alemão. Foi também o dia em que o Wanja me deixou presa na varanda.

Sim, presa. Ele saiu pra faculdade e, no automatismo, trancou a porta que liga a sala à área externa. Só percebi horas depois, porque estava num “skype date” com uma amiga. Passei duas horas isolada, sem celular (ficou na sala), sem computador (a bateria acabou).

Minha sorte é que ainda consegui falar com o Wanja pelo chat do Facebook antes que o laptop desligasse de vez (eu não sabia o telefone dele de cor para que minha amiga pudesse entrar em contato. Olha o que a modernidade faz…). Não fosse isso, eu teria que esperar, tipo, até a noite… Wanja chegaria e me encontraria de barba conversando com o Wilson rs.

Pra passar o tempo, eu observei o céu, a árvore no quintal, fechei os olhos e ouvi os passarinhos, o barulho dos carros e alguém mexendo em alguma máquina aqui na vizinhança. Mas essa “meditação” não durou muito, não. A solução foi… dormir.

varanda

Fiz a cama na varanda…

(more…)

 

Uma boa história 25/06/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 4:32 AM

Essa frase é a coisa mais verdadeira que li nos últimos tempos:

“Independentemente de qualquer coisa, é muito bom olhar para trás e poder contar uma boa história.”

E quando eu olho pra trás, vejo que muitas das melhores eu vivi quando saí da minha zona de conforto.