Minhas Folhas de Relva

percepções do cotidiano em letras livres

O que os olhos não veem, a mente aumenta 03/09/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 10:00 AM

Encontrei um cantinho à beira do Rio Reno, bem pertinho da água. Lá descansa uma pedra rasa, batida, lisa, quase um banquinho japonês, que te deixa a poucos centímetros do chão. E é lá onde eu tenho me sentado depois da caminhada matinal pra fechar os olhos na direção do Sol, relaxar e meditar. Uns 10 minutinhos, que seja.

Foi engraçado. Da primeira vez, eu e meus olhos fechados nos surpreendemos com um barulho. A calmaria do rio ficou meio revolta. Eram ondas. Os barcos que fazem transporte de carga, grandes e pesadões, ao passarem, transformam o rio em um tímido mar.

Mas, de olhos fechados, ainda não bem relaxada e muito menos em estado meditativo, eu não via o tamanho da onda. Mesmo sabendo que é só um leve avanço de água, o barulho tomou grandes proporções na minha cabeça. Parecia um Tsunami, ia me molhar toda. Inquietação. Mas calma, não é possível. Barulho continua, inquietação persiste.

Abri os olhos pra ter certeza do que não existia. Mas que na minha mente, enquanto o escuro dela era toda a realidade, fora muito real.

Ow, foi muito dahora percerber que vivenciei uma metáfora para as peças que a nossa cabeça hiperativa nos prega! Quantas vezes a gente não enxerga a realidade com o escuro da nossa mente que não consegue ver direito, num é???

Já me sentei várias outras vezes no banquinho talhado pela natureza. Da segunda, fechei os olhos, ouvi as ondas. A inquitação voltou, confesso. Mas falei pra mim mesma “calma, Aline. É só a mente vivendo o que não existe e dando chilique”. E enfim, relaxei.

 

Arrebentação 02/09/2016

Filed under: Cotidiano,Divã,Vida no exterior — Aline Moraes @ 4:14 PM
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Aprender inglês é como banhar-se na Praia da Fazenda. É tranquilo, familiar, você vai desde pequeno. Dá pé por bastante tempo. Só quando você quer mesmo ir bem mais adiante, depois de bastante avançar, já quase em Alto Mar, é que a areia deixa de tocar os pés. E muita gente acaba ficando só no raso mesmo.

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Já aprender Alemão é se aventurar na Praia da Sununga. Logo de cara tem onda forte, é desafiador, e você fica pensando “putz, isso não vai dar certo”. Mas você vai, toma uns puta caldos, fica com o bikini cheio de areia, se pergunta “qq eu tô fazendo aqui?!”. Daí, passada a arrebentação, você percebe que não dá pé, mas a água é mais calma, você nada, você boia, nada de novo e vai se sentindo muito forte por ter vencido o começo revolto. Olha pro horizonte e vê que tem muita água pela frente, mas medo você já não tem mais🙂

 

 

O sonho 12/07/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 9:32 AM

Foi dia 30 de Junho. De 2016. Um ano depois que aterrisei em solo alemão. Foi também o dia em que o Wanja me deixou presa na varanda.

Sim, presa. Ele saiu pra faculdade e, no automatismo, trancou a porta que liga a sala à área externa. Só percebi horas depois, porque estava num “skype date” com uma amiga. Passei duas horas isolada, sem celular (ficou na sala), sem computador (a bateria acabou).

Minha sorte é que ainda consegui falar com o Wanja pelo chat do Facebook antes que o laptop desligasse de vez (eu não sabia o telefone dele de cor para que minha amiga pudesse entrar em contato. Olha o que a modernidade faz…). Não fosse isso, eu teria que esperar, tipo, até a noite… Wanja chegaria e me encontraria de barba conversando com o Wilson rs.

Pra passar o tempo, eu observei o céu, a árvore no quintal, fechei os olhos e ouvi os passarinhos, o barulho dos carros e alguém mexendo em alguma máquina aqui na vizinhança. Mas essa “meditação” não durou muito, não. A solução foi… dormir.

varanda

Fiz a cama na varanda…

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Uma boa história 25/06/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 4:32 AM

Essa frase é a coisa mais verdadeira que li nos últimos tempos:

“Independentemente de qualquer coisa, é muito bom olhar para trás e poder contar uma boa história.”

E quando eu olho pra trás, vejo que muitas das melhores eu vivi quando saí da minha zona de conforto.

 

Sobre o que é e o que não precisa ser 22/06/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 10:00 AM

A dor, ela simplesmente existe, sempre estará lá. Mas sofrer é uma escolha. Talvez, necessária. Mas também, a mais fácil.

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Berlin, Meyerbeer 26 21/06/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 9:11 PM

Não sei se é porque estou menstruada, se é porque já chorei hoje por adicionar peso à minha cesta de culpas, ou se é porque realmente valia a pena. Chuto que são as três coisas combinadas. Hoje, eu me emocionei pela primeira vez com um livro desde que cheguei à Alemanha. Pela primeira vez, um livro em alemão.

Berlin Meyerberr 26“Berlin, Meyerbeer 26”, escrito por Tanja Nause, é um livro para quem está aprendendo a língua, para quem está no nível B1+. Mas isso é só um detalhe. Porque é maravilhoso. É poético na sua simplicidade. Não falo nem da linguagem, mas da simplicidade do tema.

Josefine é uma encadernadora de profissão e colecionadora de ruídos por vocação. Na busca por um barulho específico, ela nos conta de si e dos seus vizinhos. [Todos moradores de uma casa antiga, de uns 3 ou 4 quatro andares, onde há vários apartamentos. É o que chamamos aqui de Mehrfamilienhaus. É o tipo mais comum de moradia na Alemanha, um país onde as pessoas quase não têm elevador, muito menos porteiro, mas todas têm um quintal nos fundos, compartilhado. Às vezes usado em conjunto, às vezes não. Em Meyerbeer 26, felizmente, sim.]

De quebra, Josefine nos conta também um pouco sobre Berlin, sobre a história da Alemanha dividida (o bairro onde ela mora, Weißensee, ficava no lado soviético da Berlin dividida), a história do país, afinal. Mas, o que me prendeu do início ao fim foi que, na busca pelo ruído – grrrff grrrff -, ela também buscava a si mesma, com uma aceitação de si, abertura para o outro e singeleza perante a vida que me tocaram muito.

No final, um dos moradores fala da diferença entre acaso e probabilidade, de como estamos todos conectados, ainda que não saibamos, pelas escolhas que fazemos. Todos os moradores daquela casa antiga, antes mesmo de se conhecerem, estava ligados pelo que os fizeram escolher morar lá. E foi o clima acolhedor que, sem querer, a moradora mais antiga, há 70 anos no andar térreo à direita, oferecia para quem entrava na Meyerbeer 26 pela primeira vez. As flores na varanda da Dona Zebunke, a guirlanda de flores ornamentando a porta, o cheiro de Apfelkuchen, o relógio Cuco dando as badaladas a cada hora cheia.
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“Não existe perda, existe movimento” 12/05/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 6:22 AM
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Depois de alguns segundos já rodando no Chapeu Mexicano, me dei conta de que eu poderia, simplemente, abrir os braços e curtir, como se quem estivesse me botando no ar, voando, fosse eu mesma❤

Essa frase ficou para sempre na minha cabeça. Foi-me dita num momento de partida e de chegada. E toda a vez em que me vejo numa situação assim, de mudança, percebo como a frase é verdadeira, sempre.

Sim, deixamos coisas para trás quando escolhemos partir (seja de um relacionamento, de um emprego, da casa dos pais, da cidade, do país). Sim, perdemos o conhecido, o aconchego, o conforto, os momentos futuros. Mas não há vazio da perda. Quer dizer, não precisa haver.

Mas, para mim, o vazio se instalou e doeu pra cacete. O símbolo mais supérfluo do conjunto de perdas que eu colecionei ao fazer a escolha que fiz é… a minha cama. Cama box, novinha, que eu comprei pro cafofo, superconfortável, onde eu dormia como um anjo 7h por noite. Ela ficou pra trás, como todos os utensílios para a casa, os objetos de decoração escolhidos com carinho e toda uma vida que eu havia criado.

Cheguei na Alemanha me recusando a perder com a minha escolha. Martirizando-me por dormir numa cama mole, sem molas, sem conforto, onde o sono não era tão bom quanto antes. Cada noite mal dormida e as manhãs com dor nas costas me faziam remoer as perdas tantas. Das mais supérfluas às mais profundas.

“Mas, Aline, não se pode ganhar sempre”. É difícil aceitar isso, né? Porém, é necessário. Até porque isso abre caminho para a sensação que, um dia, sorrateira e morna como um banho gostoso, chegará. A sensação de entender a tal frase. Entender que a perda abre caminho para novos ganhos. E que essa perda – ou melhor, “o-deixar-de-ganhar-naquela-circunstância-que-você deixou-para trás” – não elimina todos os ganhos que se teve antes.

Escolher partir não tirou de mim a felicidade de comprar meu apartamento, decorá-lo, amá-lo. Nem os momentos que tive com o grupo incrível com os amigos de trabalho que fiz. Nem os aprendizados e alegrias que tive nos outros relacionamentos. Muito menos o amor dos meus familiares e das minhas melhores amigas.

Claro, a gente deixa de viver mais dessas coisas. Ou vive de outro jeito – que pode ser menos gostoso ou menos intenso, mas continua sendo possível vivê-las, é toda uma reestruturação e ressignificação. De novo, não é fácil aceitar isso que vem com a escolha. Mas uma hora você sente o movimento, que vai preenchendo o espaço vazio criado, no início, por aquela sensação doída da perda. E você se sente tão cheio!

Começa a aceitar que a cama não é aquela, mas que é possível ter uma bacana também. Talvez não igual, talvez demore um pouco pra conseguir, mas vem. A gente não terá noites mal dormidas e dores nas costas para sempre. E, o melhor, começa a olhar com outros olhos para as coisas que só aquela mudança, ainda que sofrida, poderia proporcionar.

Agora, eu estou aqui, escrevendo esse post da varanda de casa, passarinhos cantando, o sol da manhã batendo suave na lateral do meu rosto. Esse é o movimento. Ele compensa a cama que eu deixei pra trás. E me oferece algo que eu nunca tive.

Se eu estou aqui, feliz (e felicidade é saber que eu posso superar os obstáculos, a deprê, os medos), é porque aquele “vazio” do início está se permitindo preencher por todo o amor e as vivências que me constituem essencialmente, pelos pequenos e sublimes ajustes já feitos no dia a dia e por tudo o que de novo ainda está por vir!