Minhas Folhas de Relva

percepções do cotidiano em letras livres

“Não existe perda, existe movimento” 12/05/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 6:22 AM
IMG_1943

Depois de alguns segundos já rodando no Chapeu Mexicano, me dei conta de que eu poderia, simplemente, abrir os braços e curtir, como se quem estivesse me botando no ar, voando, fosse eu mesma❤

Essa frase ficou para sempre na minha cabeça. Foi-me dita num momento de partida e de chegada. E toda a vez em que me vejo numa situação assim, de mudança, percebo como a frase é verdadeira, sempre.

Sim, deixamos coisas para trás quando escolhemos partir (seja de um relacionamento, de um emprego, da casa dos pais, da cidade, do país). Sim, perdemos o conhecido, o aconchego, o conforto, os momentos futuros. Mas não há vazio da perda. Quer dizer, não precisa haver.

Mas, para mim, o vazio se instalou e doeu pra cacete. O símbolo mais supérfluo do conjunto de perdas que eu colecionei ao fazer a escolha que fiz é… a minha cama. Cama box, novinha, que eu comprei pro cafofo, superconfortável, onde eu dormia como um anjo 7h por noite. Ela ficou pra trás, como todos os utensílios para a casa, os objetos de decoração escolhidos com carinho e toda uma vida que eu havia criado.

Cheguei na Alemanha me recusando a perder com a minha escolha. Martirizando-me por dormir numa cama mole, sem molas, sem conforto, onde o sono não era tão bom quanto antes. Cada noite mal dormida e as manhãs com dor nas costas me faziam remoer as perdas tantas. Das mais supérfluas às mais profundas.

“Mas, Aline, não se pode ganhar sempre”. É difícil aceitar isso, né? Porém, é necessário. Até porque isso abre caminho para a sensação que, um dia, sorrateira e morna como um banho gostoso, chegará. A sensação de entender a tal frase. Entender que a perda abre caminho para novos ganhos. E que essa perda – ou melhor, “o-deixar-de-ganhar-naquela-circunstância-que-você deixou-para trás” – não elimina todos os ganhos que se teve antes.

Escolher partir não tirou de mim a felicidade de comprar meu apartamento, decorá-lo, amá-lo. Nem os momentos que tive com o grupo incrível com os amigos de trabalho que fiz. Nem os aprendizados e alegrias que tive nos outros relacionamentos. Muito menos o amor dos meus familiares e das minhas melhores amigas.

Claro, a gente deixa de viver mais dessas coisas. Ou vive de outro jeito – que pode ser menos gostoso ou menos intenso, mas continua sendo possível vivê-las, é toda uma reestruturação e ressignificação. De novo, não é fácil aceitar isso que vem com a escolha. Mas uma hora você sente o movimento, que vai preenchendo o espaço vazio criado, no início, por aquela sensação doída da perda. E você se sente tão cheio!

Começa a aceitar que a cama não é aquela, mas que é possível ter uma bacana também. Talvez não igual, talvez demore um pouco pra conseguir, mas vem. A gente não terá noites mal dormidas e dores nas costas para sempre. E, o melhor, começa a olhar com outros olhos para as coisas que só aquela mudança, ainda que sofrida, poderia proporcionar.

Agora, eu estou aqui, escrevendo esse post da varanda de casa, passarinhos cantando, o sol da manhã batendo suave na lateral do meu rosto. Esse é o movimento. Ele compensa a cama que eu deixei pra trás. E me oferece algo que eu nunca tive.

Se eu estou aqui, feliz (e felicidade é saber que eu posso superar os obstáculos, a deprê, os medos), é porque aquele “vazio” do início está se permitindo preencher por todo o amor e as vivências que me constituem essencialmente, pelos pequenos e sublimes ajustes já feitos no dia a dia e por tudo o que de novo ainda está por vir!

 

Toda nudez será… 11/05/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 10:19 AM

… encarada como algo normal. É assim aqui na Alemanha. Não à toa a galera se surpreende com nossos corpos seminus na praia e no Carnaval, e com o pudor no dia a dia.

Domingo passado, eu e o Wanja pedalamos por uma meia hora até um ponto do Rio Reno onde se formam umas “praias”, onde o pessoal costuma se banhar e tomar Sol. Havia perto da gente um senhor de cabeça grisalha deitado sobre a “areia de pedrinhas”, num cantinho meio escondido.

Para a minha surpresa, o cara tirou a roupa na moral ali e tomou seu Sol peladão. Fiquei, assim, sem saber o que fazer. Morrendo de vergonha rs. Falei pro Wanja “Bäbe, o tiozinho tá pelado!”. E o Wanja “É, é normal” e continuou lendo o livro dele, tranquilamente, sem nem olhar direito pra cena, enquanto eu processava o que tinha visto.

IMG_1955

A nossa vista – e a do tiozinho

Claro, o tiozinho não estava no meio da praia peladão, tava no cantinho, de boas. Alguém podia passar? Podia. Passaram? Passaram. Se indignaram? Não. Só eu ali, com meu recém comprado bikini europeu, estava achando aquilo um problema. Bem, não um problema. Mas era estranho. Eu vi o tiozinho pelado, gente!

Ele tomou sol de um lado, do outro, leu livro, foi pra água, voltou, torrou mais um pouco, se vestiu e foi embora. E me deixou ali refletindo, mais uma vez, sobre como a nudez na minha vida foi sempre algo a ser escondido.
(more…)

 

Páscoa – ou o verdadeiro Ano Novo 04/04/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 8:02 AM
IMG_1166

Nessa Páscoa, descobri também que os ovos que as pessoas pintam são comestíveis! Descascamos e mandamos ver na volta pra casa😉

Passei todas as Páscoas da minha vida viajando, com meus pais ou com amigos. Sempre foi um feriado, uma oportunidade de estar com os meus, curtindo. Minha família nunca celebrou o tal significado da Páscoa, morte e renascimento de Jesus. Devo ter feito enfeites com coelhinhos na escola, mas nunca busquei ovos escondidos pela família.

Neste ano, eu queria dar àquele momento o mesmo significado: tempo livre pra viajar e curtir. Mas para o meu marido, a época de Páscoa é também de uma importante festividade espiritual. Resultado: ou eu ia viajar sozinha ou iria acompanhar o Wanja, que viajaria para a cidade onde mora o pai dele, na região da Bavária, onde eles fariam um intenso trabalho espiritual, com meditação.

No começo, fiquei irritada por sentir que minha liberdade de escolher passar a Páscoa como sempre passei havia sido limitada. Podia viajar sozinha, mas também não queria (e a verdade é que viajar na Páscoa sai bem mais caro). Então resolvi ir junto. Regensburg é uma cidade bonita, antiiiga, valeria o passeio também. Fomos.
(more…)

 

Room 22/03/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 6:46 AM

Não se trata de dizer se a cabana onde por anos viveram Jack e Joy no filme “Room” era pequena demais, suja demais, desumana demais. Aquilo era o mundo para Jack. Ele acordava e dava bom dia pra cada móvel, porque aquilo era a realidade dele. Todo o resto eram só imagens em duas dimensões na TV.
******
room
Quando mãe e filho (sempre pensei que fosse filha!) conseguiram escapar, se iniciou um processo estranho, de negação. Jack sentia falta do “Room”, tudo o que estava no mundo lhe era estranho e ele não queria experimentar essa outra realidade. Ele queria a cama de Room. Passado o primeiro momento de alívio e felicidade por ter se livrado do cativeiro, Joy começa a pensar e lamentar o que perdeu naqueles sete anos, e não aquilo que ganhou ao ter liberdade.
(more…)

 

Um sorriso de cumplicidade 22/02/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 6:12 PM

Outro dia, eu estava voltando pra casa, contente por qualquer coisa (que é a melhor coisa do mundo!) e cantarolando uma música da Alanis. Daí que eu estava prestes a cruzar com uma moça – visivelmente alemã, cabelo meio azul, piercing no nariz – e, num longo segundo, a gente trocou um sorriso de cumplicidade. Ela também cantarolava a caminho de algum lugar, contente por alguma coisa. Foi um momento mágico. Foi num piscar de olhos, num abrir e fechar de boca, mas encheu o meu coração de uma espécie de esperança, de um otimismo… daquela certeza de que a gente sempre encontrará gente como a gente em qualquer lugar. Home is where the heart is. And where we can be ourselves.

diferentes porém iguais

 

Joining You 16/02/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 3:19 PM

A música é um bagulho maravilhoso. Desde que eu era bem pequena, eu a uso como método de aprendizado. Minha relação de amor com o Inglês surgiu por meio da música. Tateando palavras, saboreando pronúncias e descobrindo significados. Não só dos termos estrangeiros, mas das letras.

Putz, recebi tanto apoio dos meus ídolos, que me escreveram em inglês… Passei por crises existenciais, decepções amorosas, momentos românticos, reflexões profundas… E é engraçado que eu ouço praticamente as mesmas músicas há anos e os sentidos vão se descortinando mais e mais a cada vez. Aconteceu isso hoje.

Sou fã na Alanis desde que eu tinha, pelo menos, 15 anos. No começo, era difícil entender o que ela dizia sem ler a letra. Algumas canções eu aprendi apenas o que eu pude identificar ao ouvi-las. Uma delas é Joining You. Ela nunca fez muito sentido, apesar de eu sentir sua intensidade.

Hoje eu resolvi pegar a letra pra ver se eu estava cantando certo. Me surpreendi ao perceber que entendi de ouvido, lá atrás, 90% do que Alanis diz. Mas faltavam alguns detalhezinhos. E – puta! – que música foda.

Talvez eu não tenha entendido antes porque o meu momento de vida não me permitia. Hoje, sabendo mais como o sofrimento pode levar à morte, eu entendi. E abracei a mensagem. Alanis fala a um amigo que queria se suicidar. E ela diz “se nós fôssemos nossos rótulos, nossas ilusões, nossos corpos e emoções, nossos futuros, nossa cultura, nossas defesas, nossos líderes, nossas rejeições, nossos sucessos, as condenações dos outros, as projeções dos outros, nossos salários, nossas obcessões e paranoias, nossas aflições, nossas negações… eu me juntaria a você.”

E nós não somos essas coisas. Podemos não saber o que somos, mas não somos essas coisas. Vale a pena viver nem que seja para provar para nós mesmos que essas coisas não podem e não vão nos definir.

Obrigada, Alanis.

(more…)

 

7 coisas que não podem faltar numa casa alemã 09/01/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 1:33 AM

Descascador de ovo cozidoUm amigo compartilhou comigo uma lista publicada no site da Deutsche Welle (a DW) sobre 10 coisas que não podem faltar numa casa na Alemanha. Ela já começa zoando com a minha cara: Eierschalensollbruchstellenverursacher. Isso mesmo. Sabe o que é?
Um utensílio para quebrar a casca do ovo cozido. É tipo: “causador de onde se deve fazer a quebra da casca de ovo”. Devia ser apenas Eierschalenbrecheneitor Tabajara.

Mas é fato que alemães gostam de um ovo cozido no café da manhã. Ou como lanchinho. Dá uma mordida, bota sal e pimenta. Outra mordida… Wanja faz pra ele, mas descasca o ovo na raça.

Vejam aí a minha versão da lista da DW (que não inclui esse descascador de ovos, óbvio):

(more…)

 

 
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 568 outros seguidores