Minhas Folhas de Relva

percepções do cotidiano em letras livres

Preciosa 03/03/2010

Filed under: Cotidiano,Cultura — Aline Moraes @ 10:57 AM
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Eu já tinha ouvido falar desse filme, Precious, estrelado por uma atriz novata, de 26 anos, que logo de cara recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz por viver nas telas uma adolescente negra, gorda, pobre, analfabeta, violentada pelo pai, abusada pela mãe. Queria assistir ao filme para ver “quem é essa menina???”.

Me surpreendi. Não só pela atuação de Gaborey Sidibe, que conseguiu incorporar a personagem (quase-verídica*) do livro Push (Record), escrito pela norte-americana Sapphire. Acho que gostei até mais da interpretação de Mo’Nique, que faz a mãe de Precious – e está indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, com todo o louvor.

Me surpreendi mesmo com a minha reação. Fiquei paralisada. Quando o filme terminou, eu quase não piscava enquanto os créditos iam passando ao som de uma música que eu não conhecia, mas gostei muito. Precious me tocou de um jeito estranho. Durante o filme, chorei só uma vez, quando vi Precious falar (gritar) – e, pela primeira vez, sem medo do que ia dizer ou como – sobre sua vida sofrida e sobre como o “amor” não havia feito nada por ela. Eu só consegui chorar mesmo quando entrei na estação Vila Madalena do Metrô, em direção à minha casa.

A história é triste, sofrida, e foi feita para ser comovente. Precious, apesar de tudo, encontra forças para conquistar uma autoestima que nunca lhe foi permitida. Sei que fiquei tocada porque conheci meninas e ouvi histórias semelhantes à de Precious, de abuso, abandono, violência. Mas o que mais me comoveu foi perceber que não é preciso muito para juntar os cacos da autoestima de alguém. As pessoas querem ser ouvidas, respeitadas, estimuladas, valorizadas, autorizadas a ser. É um desafio, mas as ferramentas não estão em lugar nenhum senão em nós mesmos.

Foi isso que a professora Blu Rain fez com Precious e com as outras meninas da sua sala na tal “escola alternativa”. Sua estratégia era fazer com que elas escrevessem, da maneira como pudessem, o que acontecia em cada dia de suas vidas. A professora, em retorno, comentava e também escrevia seu diário. Vidas eram compartilhadas naquela sala de aula, além do abecedário. A única exigência era se dispor a se abrir para o outro. Saber que a vida não começa e termina em nós mesmos.

Foi incrível ver o que esse gesto de amor fez por Precious. Foi chocantemente incrível notar, mesmo que por meio de uma produção ficcional, que a vida cria sentido em atos simples e sinceros, ainda que não seja fácil. Precious queria ser famosa, adorada pelos holofotes e por um belo cara de moto vermelha. Mas só do que ela precisava era de Amor e de incentivo para seguir sua vida com passo firme, ainda negra, gorda, pobre, mas não mais abusada, nem analfabeta. Nem invisível.

* Eu não sabia se a história do livro era verdadeira ou não. Em entrevista à Folha, Sapphire contou que Precious (ou melhor, Clareece Precious Jones) existiu, era uma de suas alunas no Harlem nova-iorquino. “”Eu dava aulas no Bronx, o bairro mais pobre de Nova York, meus alunos eram na maioria negros e latinos. Uma delas contou que tinha uma filha retardada, que nascera quando ela tinha 12 anos e era filha do próprio pai. Outra era espancada pela mãe”, disse Sapphire. A Precious que vemos no filme é, então, uma mistura de todas as preciosas que passaram pela vida da autora.

 

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