Minhas Folhas de Relva

percepções do cotidiano em letras livres

Deixar partir – e saber partir 16/04/2010

Hoje, um amigo me mandou o link de uma matéria muito comovente, que botou minha cabeça (e meu coração) para refletir. “Mãe antecipa parto para atender desejo de filho com câncer”. Esse é o título da matéria que saiu no Terra. Ela conta a história de Rebecca White, uma britânica de 27 anos, grávida e mãe de Pierce, de oito anos, e de outros três filhos. Pierce tem um tipo bem agressivo de câncer, segundo a matéria (originária da BBC), e a quimioterapia não está surtindo efeito nele. Para os médicos, não há mais perspectiva de cura. Pierce deve ter algumas poucas semanas de vida.

Por isso, a família tomou uma decisão extremamente difícil (e humana): parar de vez com o tratamento, para que Pierce não sofra mais em seus últimos dias de vida e para que ele possa aproveitar esse tempo para fazer as coisas de que mais tem vontade. À BBC, Rebecca disse que “nós conversamos com ele [Pierce] sobre isso e ele disse que aguentou o suficiente, que não quer mais. Está cansado. Nós decidimos que é melhor que ele morra com um pouco de dignidade”. Imagina chegar a esse veredicto? É um tipo de amor que eu ainda não consigo compreender (quem sabe, quando eu for mãe… se um dia eu for…).

Ultimamente, tem-se falado bastante no direito de dizer “sim” à morte ao invés de prolongar uma vida alimentada por soros e tubos e aparelhos. Em 2008, a Eliane Brum, repórter especial de Época, publicou uma matéria sobre a Enfermaria de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo (leia aqui). Há quem dê para essa ala o nome de “enfermaria da morte”, porque, para lá, só vão as pessoas com mínimas chances de cura. Mas o que Eliane vivenciou lá tem mais cara de vida. “O tratamento ali começa onde a maioria termina. Ao acolher pacientes com a vida abreviada pelo câncer ou por uma doença crônica, defende-se uma prática médica em que cuidar é mais do que curar”, conta a repórter.

Na época em que foi escrita essa matéria, os cuidados paliativos não eram bem vistos, como dá para sentir pelo apelido “enfermaria da morte”. Mas, a partir desse ano, a coisa pode (aliás, deve) mudar de perspectiva. O novo Código de Ética Médica, que entrou em vigor nessa semana, recomenda, entre outras coisas, que os médicos não insistam em tratamentos “inúteis e obstinados” em pacientes terminais, ou seja, aqueles que já não apresentem, cientificamente, qualquer possibilidade de cura. Ao contrário, que os médicos adotem práticas para minimizar o sofrimento do doente e dar a ele alguma qualidade de vida, como a possibilidade de ficar mais próximo da família, de não ouvir falar em doença e de sorrir apesar de tudo (e por causa de tudo, da vida vivida). Assim como aconteceu com Pierce na Grã-Bretanha, no Brasil, pacientes terminais com câncer também não devem mais ser submetidos a tratamentos que só tragam efeitos colaterais desagradáveis, sofrimento e nenhuma melhora.

Meu avô paterno morreu de câncer. Eu ainda era criança demais para entender. Nem lembro se fui visitá-lo no hospital. Mas lembro que, anos depois, meu pai me contou o que meu Vô Jovino disse a ele um dia antes de morrer: que queria ser transferido para um hospital melhor, particular. Achava que, assim, poderia se curar. Mas o câncer já havia tomado todo o seu corpo, não havia mais chances. Até o último segundo ele ficou no hospital, preso a aparelhos e a tratamentos. Meu pai recebeu a notícia de madrugada, pelo que eu me lembro. Se a perspectiva dos cuidados paliativos já fosse uma realidade aceitável, acho que meu avô poderia ter pensado e feito coisas mais legais antes de partir, ao invés de ficar esperando por um tratamento que não viria, porque já não havia mais jeito.

Pelo visto, o menino Pierce fez uma opção bem diferente diante do fim da vida. Optou por vivê-la. Um dos seus desejos era ser mascote do seu time favorito de rugby. Desejo realizado. Outro era poder segurar @ nov@ irmã(o) nos braços. Para isso, sua mãe decidiu induzir o parto. Foi essa a decisão que transformou a vida da família White em manchete. Mas o que mais chama a atenção é a postura da família e, sobretudo, da criança. Quanta maturidade para um menino de oito anos! Maturidade essa que, talvez, poucos adultos (menos ainda que crianças) tenham numa hora como essa.

Isso me faz pensar que, mais do que conscientizar os médicos sobre a importância dos cuidados paliativos nesses casos, os pacientes e seus familiares devem compreender o que isso significa. Foi nisso, principalmente, que a matéria sobre Rebecca e Pierce me fez refletir. O que eu faria se fosse o meu pai nessa situação? Com câncer e, segundo os médicos, sem chances de cura? Eu toparia suspender os tratamentos? E meu pai? Será que nós sentiríamos culpa por “desistirmos” de lutar pela vida até o último segundo? Não sei a quem caberá agora a decisão, se aos médicos, ao paciente ou à família ou a todos os envolvidos. E sei menos como aprender a lidar com o dilema entre a vida e a morte. Mas acredito que a valorização dessa perspectiva dos cuidados paliativos poderá nos ajudar a entender e a enfrentar um de nossos maiores medos: o de morrer.

 

One Response to “Deixar partir – e saber partir”

  1. Nana Says:

    Gemela, eu tb li essa matéria da Eliane e achei tudo mto comovente. Foi na época que meu avô estava com câncer (também) e a minha família optou pelos cuidados paliativos – e eu fui uma forte apoiadora da decisão. Mas quer saber do que? meu avô ficou achando que a gente tinha desisitido dele. Porque ele não queria morrer, queria viver, queria lutar. Ele pediu tratamentos novos pra curarem ele até logo antes de morrer. Ele acreditava nisso. E isso não foi ruim, pq para o meu avô era mais importante lutar pela vida do que se preparar para a morte. O que eu quero dizer é: às vezes os cuidados paliativos podem parecer a decisão mais humana, mas em casos de vida ou morte, não existe resposta geral. Existe sim cada pessoa enfrentando a vida e a morte à sua maneira. Como todo o resto…


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