Minhas Folhas de Relva

percepções do cotidiano em letras livres

É de família… 10/05/2010

Filed under: Comportamento,Cotidiano — Aline Moraes @ 3:07 PM
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Lembro-me de como foi estranho o primeiro Dia das Mães em que minha Mamis recebeu três presentes. Até 2005, eram só o meu e o do meu irmão, Eduardo. Sobre a cômoda do quarto dos meus pais, estava uma espécie de porta retrato feito à mão, com papel cartão. Azul e laranja. Escrito à canetinha “Mamãe eu te amo”. Na foto, uma menininha. Não era eu.

Há cinco anos, eu ganhei uma irmã. A Pâmela nasceu para a gente aos 12 anos, num processo chamado de adoção tardia (quer saber mais sobre? Leia a matéria e uma entrevista que fiz para a revista CRESCER). Ela já sabia falar, andar, comer sozinha, reclamar, pedir, ficar contente, ficar emburrada e negociar deveres e vontades. Não foi fácil para mim aceitá-la, ainda que eu visse a atitude da minha mãe como algo muito bonito (e a apoiei nessa!) e achasse a Pâmela uma menina legal. Não foi nada fácil.

Minha mãe sempre foi “na dela”, com um bloqueio para dar grandes demonstrações de afeto, como beijos mais demorados e abraços mais apertados. Sabia que era o jeito dela. Mas quando vi a Pâmela dando nela um abraço maior do que eu jamais ousara dar, fiquei mal. Vi de soslaio, da porta do meu quarto, a cena na sala de TV.

Daquele dia em diante, eu resolvi que não queria mais presenciar esse tipo de coisa. Ficava fora de casa aos finais de semana. Era nesses dois dias que a Pâmela ia para casa no começo, como “visitante”. Demorou um ano, mais ou menos, para ela ganhar uma cama definitiva em nossa casa. E mais um tempo ainda para construir um espaço no que eu entendia como a MINHA família.

Eu confesso: sentia ciúmes. Muito ciúmes. “Se minha mãe não me deu tanto carinho físico, não pode dar para mais ninguém!”. Amigos e parentes não acreditavam na minha atitude imatura. Eu já tinha 19 anos. Mas me sentia como a criança de seis que acaba de ganhar um irmãozinho pequeno e tem medo de perder o lugar de caçula, de deixar de ser o centro das atenções…

Hoje, eu já tenho 23 anos. A Pâ vai fazer 17, já! Está uma “moça”, como diz o vocabulário das tias. Eu, que há alguns anos não conseguia vê-la como parte da família, agora a vejo como a irmã mais nova, que eu quero proteger, aconselhar e ver crescer. Pego-a no colo de brincadeira (ainda que ela pese tanto quanto eu) e canto com ela músicas da Lady Gaga. Recentemente, ela colocou no orkut dela uma foto minha, com a legenda “eu te amooo”. Fiquei tão emocionada! Como é incrível ver o sentimento de família nascer assim, sem a obrigatoriedade sanguínea

Ontem, foi Dia das Mães, mais uma vez. Agora, já não é mais estranho ter um presente a mais. Aliás, nesse ano, foi um presente a menos, na verdade, porque meu irmão está no Paraguai. Eu dei para minha mãe um guia de viagens da Europa e mais um dos meus famigerados cartões com mensagens “enoooormes”, que todo mundo zoa dizendo “eee… a Aline escreveu outra redação” ou “nossa, ‘só’ tem quatro páginas dessa vez?!”…rs. A Pâ deu um belo estojo de maquiagem (que ela comprou com a mesada dela!) e um cartão também. Dava pra ver que tinha bastante coisa escrita, até no envelope. Todo mundo reparou e comentou “olha essa daí também!”. Só me restou soltar, da forma mais natural possível (aquela que não exige pensar): “É de família, né?…”.

É, é de família, da nossa…….. ; )

 

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