Minhas Folhas de Relva

percepções do cotidiano em letras livres

Sobre o que está fora – e o que está dentro? 08/10/2010

Filed under: Divã,Intercâmbio — Aline Moraes @ 12:38 AM

Mudei de espaço e de tempo com a ideia de ficar mais próxima de mim mesma. E agora me dou conta de que a forma como parti e todo o planejamento e expectativa pra chegar aqui têm me levado pro lado contrário. Ainda que eu esteja aprendendo e me conhecendo em pequenos detalhes da vida cotidiana como nunca a experimentei antes, isso não significa, necessariamente, estar mais perto de mim.

A verdade é que continuo ocupada com o que está fora. Acho que sempre busquei fora um entendimento de mim, quando, na verdade, está dentro. É aquele tipo de coisa que você só descobre num diálogo interno. Mas como é difícil voltar todos os olhos só pra dentro de si quando há tanta gente olhando pra você (de fora), preocupada com você, esperando de você – inclusive você mesmo. Vivo ouvindo falar nesse tal do “diálogo interno” e ele tem me parecido mais é frase de efeito… Como a gente atinge esse nível de comunicação????

Disseram-me esses dias que solitude é parar de se preocupar – e é aí que você consegue debruçar-se pra dentro. Aaahhh… estou longe disso! Eu ainda estou olhando pra Aline que está fora, e me espanto com o tanto de coisa pequena (ainda que com sua devida importância) que lhe tira o sono, e com seus sentimentos e desejos contraditórios. Essa Aline que precisa de saboneteira (ela, na verdade, comprou uma hoje, mas ainda falta o cesto pra roupa suja…); que não sabe se anda de avião ou se compra uma bicicleta; que necessita fazer novos amigos (mas não sente aquela vontade de tornar o novo, de fato, conhecido); que almeja um inglês fluente (mas não se mexeu pra começar a estudar); que ainda pragueja o fato de não ter um cinema e um pub descolado perto de casa; que poderia estar farreando por aí e curtindo a vida adoidada, como fazem outros intercambistas (mas não está – por quê será?); que sente certa obrigação em conhecer logo tudo sobre essa cidade tão cobiçada (e fica a meio caminho entre a euforia e uma noção de que não é preciso ter pressa nem tanta ânsia); que deveria tirar foto de tudo, tudinho, e publicar para a família e os amigos em-todas-as-redes-sociais-possíveis-etc e tal.

Não vou negar esses sentimentos e desejos e experiências a mim mesma (ainda que eles possam conflitar com o que é NECESSÁRIO). Eles fazem parte, só podem fazer parte desse processo de intercâmbio. Mas não posso deixar de ter em mente o que vim fazer aqui… E não foi para fazer mero turismo, ou tirar férias pra farrear, tirar fotos e ter mais um milhão de amigos no Facebook. Acima de tudo, vim em busca de conhecer melhor as relações humanas, em busca da Aline e dessa solitude.

Acho que com o tempo ela virá. Talvez, quando não houver mais pontos turísticos famosos para fotografar; quando eu deixar de me ocupar com relações superficiais; quando eu me der conta de que não ter o pub mais descolado do mundo do lado de casa não faz diferença, e que saborear um pint de Ale na tranquilidade do pub local frequentado por sessentões pode ser legal. “E só quando estamos em nós estamos em paz, mesmo que estejamos sós”, já dizia Leminski.

Por enquanto, confesso que, à parte os desafios culturais, tem sido mais uma mudança geográfica para promover de forma drástica a experiência de morar sozinha, de se ver sozinha e começar do zero. E isso me assusta um pouco, porque preciso canalizar minha preocupação pra construir toda uma vida aqui que, ao fim de um ano, terei que dobrar em quatro e colocar na mala, pra depois tirar os vincos e pendurar na parede quando chegar em casa – mas onde será a minha casa??? Epa, peraí! Não, não pode ser “só” isso… Um mero parêntese. Não será… Não será? Não será! No fundo, apesar de questionar (questionar é bom, mas às vezes cansa e consome seu precioso “tempo de meia vida”), continuo confiando no poder catalisador da ruptura, da mudança de espaços e tempos para a compreensão de quem somos – e de quem são os outros e como podemos nos relacionar (melhor).

Conto a conclusão daqui a um ano…

 

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