Minhas Folhas de Relva

percepções do cotidiano em letras livres

A camisa amarela 16/12/2010

Filed under: Cotidiano,Intercâmbio — Aline Moraes @ 2:23 PM

“Tia, posso usar aquela camisa amarela que ela sempre usava nas entrevistas de emprego?”

Naquele dia, Pâmela se transformou de muleca de 17 anos em uma mulher de postura e responsável, buscando seu primeiro emprego de verdade, como recepcionista de um hospital. Nunca vi uma menina que transmita tanta confiança quanto ela. Ainda mais quando arruma os longos cabelos castanhos, lisos como se assim tivessem nascido, coloca maquiagem na medida certa, mete um salto alto, estufa o peito farto e vai…

Consigo imaginar ela se arrumando, esbaforida. Ela caminhando pelo hall de entrada do hospital, toda pomposa, se apresentando com aquele sorriso branco feito marfim. Consigo imaginar ela dando risada na entrevista, mas ao mesmo tempo passando toda aquela confiança de quem tem 17 anos, mas já tem alguma coisa na cabeça e sabe bem quem ela é (apesar de ainda não saber o que vai querer ser quando crescer). Ela só podia conseguir o emprego! Consigo imaginar também a felicidade dela, os pulos, a ligação pra minha mãe, ela contando pro meu pai à noite, em alto volume, como foi a entrevista. A Pâ tá começando a abrir seu próprio caminho. Namorando, estudando inglês (e porque ela gosta!), agora trabalhando… E sendo ela mesma sempre, coisa de que mais tenho orgulho. Porque ser quem a gente é, sem medo, é a coisa mais difícil do mundo!

E aqui está a camisa amarela... Vesti-a quando apresentei um trabalho que fiz e ganhei menção honrosa por ele. Um momento muito feliz!

O que mais me emocionou nessa história é que ela achou que ficaria ainda mais confiante se recorresse a quem outra pessoa é. Não como um artifício, mas como inspiração. Sou irmã mais velha há 5 anos, não 23. Não sabia o real significado desse cargo na família. Entendi, de fato, da forma mais sublime, quando a Pâ pediu pra minha mãe pra usar aquela minha camisa amarela. Olha só como ela reparava nas coisas! É verdade, eu sempre vestia aquela camisa em entrevistas importantes. Nunca imaginei que eu pudesse inspirar, muito menos dar mais confiança a alguém assim… Fiquei orgulhosa, por ela e por mim também.

Sou menos confiante que a Pâ. Mesmo tendo conquistado tudo aquilo que eu planejei pra minha curta vida de quase duas décadas e meia, ainda desconfio dos meus planos, das minhas conquistas, da minha resiliência, do meu sucesso. Sou muito cautelosa, sobretudo com a imagem que tenho de mim mesma. Morro de medo de decepcionar. Daí,  fico sabendo que, mesmo distante e mesmo me sentindo ainda perdida na vastidão desse mundo, quem eu sou e o que eu conquistei podem ajudar minha irmã a se ver como capaz e a acreditar mais nela! Isso não é incrível???

Por um lado, coloca um pouco mais de peso nos meus ombros, porque agora sei que sou exemplo pra alguém e não posso falhar. Mas, ao mesmo tempo, sei que tenho também mais um apoio. De alguém que vai acreditar e confiar em mim mesmo se as coisas não caminharem do jeito que eu espero quando voltar pro Brasil. Porque não é a camisa amarela que conta de verdade, nem qual o emprego eu consegui com ela. Mas sim a determinação de quem esteve vestindo-a nos últimos, sei lá, 4 anos. Enquanto eu não me deixar abater, enquanto eu me levantar mesmo depois de escorregar no gelo, na casca de banana ou trupicar no meu próprio pé, sei que continuarei dando um bom exemplo, inspirando e sendo inspirada pra seguir em frente, desenhar, buscar e realizar novos sonhos.

Obrigada minha irmã!
Obrigada por ter entrado na nossa família!
E, mesmo sem saber ainda, obrigada por ter me ensinado um pouco mais sobre a vida!

Te Amo!!!

 

4 Responses to “A camisa amarela”

  1. Eduardo Moraes da Silva Says:

    Tenho muito orgulho de vcs. Pamela por ter conquistado algo importante e Aline por ser humilde e recohecer que ainda está aprendendo…

  2. Márcia Nunes Says:

    Sem brincadeira…. demorei quase dez minutos para ler a sua mensagem -coisa que eu faria em menos de três minutos.
    Lia e tinha que voltar porque os olhos mareavam em lágrimas.
    Sua mãe (a coruja com toda razão de ser) viu minha dificuldade em ler!!rsrsrs
    Aline, sua mãe sempre foi um espelho para a minha vida. As alegrias dela são também minhas alegrias – sem demagogia e ela está muito orgulhosa – apesar de saudosa – dos filhos dela.
    É até natural que vocês (você, Edu e Pâmela) se transformassem em seres humanos especiais pelo reflexo da existência e convivência dela, mas o que se torna ainda mais admirável em toda essa história é que cada um adquiriu uma particularidade de deixar, nós os amigos, EXTREMAMENTE ORGULHOSOS de conhecer e ter a oportunidade de conviver com pessoas como vocês.
    Um feliz Natal e que cada sonho da sua vida se realize porque você e sua família (LINNNNNNNNDDDDAAA) MERECEM.

    Beijos

    Márcia

  3. ANNA PAULA VAZZOLER Says:

    Aline querida!

    Que texto lindo! Chorei, chorei de emoção e de alegria, espero ter colaborado um pouquinho na formação da personalidade da Pamela, tbm estou muito orgulhosa, gosto muito, muito dela e todos vcs de sua familia. E que familia linda!! Um beijo grande Anna Paula

  4. Franklin Says:

    Como Pai não poderia ficar sem falar nada , sem demagogia ,sabia dessa qualidade tão linda uqe vc tem filha. Hoje podemos ver como vc cresceu e muito , suas palavras tem um poder tão grande , parece penetrar na nossa mente ,incrível .


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