Minhas Folhas de Relva

percepções do cotidiano em letras livres

Xmas no pub 26/12/2010

Filed under: Cultura,Intercâmbio — Aline Moraes @ 7:09 PM

Viver numa cidade grande e cosmopolita e ir parar em outra tão grande e cosmopolita quanto dá a impressão, às vezes, de que você não saiu do lugar. Culturalmente falando. Quesito moda, por exemplo. É parecido. 95% das minhas roupas eu trouxe do Brasil e não senti necessidade de comprar algo daqui com o objetivo de “pertencimento”. Se comprei, é porque estava precisando – calça jeans um número maior, casaco de inverno, luva e bota pra neve, essas coisas…

Claro, a cidade é diferente. Na periferia de Londres há pouquíssimos prédios. Isso foi o que mais me chocou. O céu dá a impressão de ser maior aqui comparado a Sampa, que parece um milharal de espigas acizentadas. Também tem muito verde. Às vezes sinto como se eu morasse na Parelheiros de Londres, nas redondezas do meu bairro tem um monte de reservas (só não tem índio). Fora um zilhão de coisas que você pode perceber olhando fotos da cidade, tipo as ruas, o trânsito, a arquitetura. Sobre tudo isso eu já falei um pouco por aqui. E essas diferenças, na minha opinião, são sutis. Cidade grande é cidade grande. Têm uma essência comum.

Typical English Xmas dinner

A questão é, quando a gente fala em intercâmbio cultural, pensa em CHOQUE. Bom, eu sempre pensei assim. Vira e mexe eu dou uma olhada nos posts novos do blog the uma intercambista brasileira que foi parar na Islândia. Cada ida ao mercado é uma aventura pra ela. Carne de tubarão, arroz de num sei o quê… Aqui não tem disso. Tá, tem sausage, marmite e outros ingredientes diferentes, mas nada que deixe meu estômago boquiaberto. Talvez o típico café da manhã inglês… mas ele já virou mais artigo de turismo do que costume diário do povo de Londres.

Mesmo no jantar de Natal, teve peru, carne assada, batata… Mas não teve carne de tubarão! Podia ter carne de raposa, pois é o único animal que eu vejo aqui e que nunca vi no Brasil… A diferença ficou por conta do cramberry sauce (molhinho de cramberry, não sei traduzir essa frutinha vermelhinha pro português), do gravy (um molho marrom feito com a gordura da carne e da batata enquanto assam, mais manteiga) e do Yorkshire pudding (um bolinho feito de farinha, ovos, leite e manteiga). Mas, tá vendo? Nada de mais…

Daí chegou a noite de Natal…

Sem família, acabamos indo ao pub que tem na esquina da rua de casa (o Plough Inn, já escrevi sobre ele aqui). Meu amigo escocês Laurence foi comprar cigarros e, na volta, ouviu um som vindo do pub. Resolveu checar e viu que estava lotado de gente (em Walthamstow, nada costuma estar lotado…). Eu, que estava em casa, no sofá, recebi uma mensagem dele e em cinco minutos estava no pub também. Passei o resto da noite de Natal tomando cerveja inglesa, observando o pessoal e dançando ao som de músicas dos Anos 40, 50 e 60 (incluindo I Want You Back, dos Jackson Five, o meu pedido ao DJ). Mas não dançando muito à brasileira, porque senão chama mesmo a atenção e os ingleses, quando não bêbados, são geralmente bastante discretos.

Não sei se no Brasil tem gente que passa o Natal no barzinho. Mas eu nunca passei e nunca concebi essa ideia. Natal, ainda que eu não curta muito o espírito que ronda a data, é tempo de estar com a família, de preparar um jantarzão pra 20 ou 30 pessoas (no caso da minha), brindar com champagne à meia noite, de fazer Amigo da Onça e passar o resto da noite dançando. Dessa vez, de conhecidos só tinha eu e os dois voluntários que moram comigo,  Laurence e Vincent (francês). E o brinde foi com cerveja. Estranho… Pra um monte de outras pessoas no bar, foi assim também. Mas deve ter sido opção deles. Ingleses gostam muito de pub, vira quase uma família também, se se trata do seu pub local. Pra mim, foi muito muito estranho. Não parecia Natal. Foi uma noite de sexta para sábado como qualquer outra – tirando o fato de que o Plough Inn tava lotado.

Senti falta do meu Natal à brasileira. De ver mais gente dançando, de forma mais animada, na festa. Senti falta de família, mas de família animada, como a minha. Senti falta da minha família, do meu País. E quando comecei a pensar em tudo isso pra escrever esse post, lembrei do que, de fato, significa o conceito de intercâmbio cultural. Mais do que a aparência das coisas, é como as pessoas se comportam, a sua essência. Na verdade, não sei se foi uma troca. Mas posso dizer que foi um choque. Daqueles que você leva quando bate o cotovelo em algo metálico: é leve, mas você sente e não entende bem de onde veio.

Já ouvi dizer que intercâmbio é uma viagem ao exterior para uma viagem ao seu interior. E que ir pra fora do País faz você identificar as coisas boas da sua origem. E é verdade. Legal, vi como é passar o Natal num estilo bem inglês-pra-solteiros, num pub com alguns conhecidos e muito mais desconhecidos bebendo cerveja. Mas dou graças a Deus que o próximo eu passarei num estilo bem brasileiro-pra-quem-tem-família…rs. Amém!

 

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