Minhas Folhas de Relva

percepções do cotidiano em letras livres

Meu segundo intercâmbio 06/12/2011

Filed under: Comportamento,Cotidiano,Divã,Intercâmbio — Aline Moraes @ 7:29 PM
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Não, eu não voltei para Londres, nem estou de partida para a Alemanha ou algum lugar da África. Meu segundo intercâmbio é no Brasil mesmo. Em São Paulo mesmo. Na minha casa mesmo. Um intercâmbio é feito de DUAS migrações: a de ida e a de volta – explica a psicóloga especializada nisso, Andréa Sebben, no livro “Intercâmbio cultural: para entender e se apaixonar”. E o mais engraçado é como esses dois processos se parecem. As crises, as dificuldades e até as forças vêm do mesmo lugar, ainda que em circunstâncias diferentes. E concordo com a autora quando ela diz que a fase de retorno pode ser ainda mais difícil.

Eu me culpo, sinto-me até envergonhada, por sofrer, no meu próprio país, aquela mesma solidão, a mesma dificuldade em conquistar meu espaço. Ser estrangeiro na sua terra natal não é fácil. Na verdade, chega a ser doloroso. Porque não se trata de se descobrir num lugar novo. Tudo parece estar como antes. Você tem que descobrir, na verdade, como encaixar seu “NOVO EU” num mundo velho e tão conhecido, mas que te parece, ao mesmo tempo, tão hostil às suas mudanças e necessidades.

A boa notícia: se eu consegui overcome isso lá, consigo aqui também. A má notícia: se lá esse processo foi lento e doloroso, aqui não será diferente…

* * *

Eu sabia que, de volta, o meu intercâmbio não teria acabado. Pelo contrário, iniciaria-se uma nova fase. Mas, como sempre, nunca estamos de fato preparados para o que vem aí. Eu não estava preparada para lidar, logo de cara, com as expectativas frustadas na minha chegada a Londres. Um ano depois, achava que, por ter superado a fase inicial de frustrações e solidão, eu tiraria de letra qualquer desafio na terra natal. Nã-não… Não é bem assim.

Claro, minha vivência lá fora me fez mais forte, mas quem disse que eu já criei todas as armas e conheço todos os adversários???! Vixe, faltam ainda muitos intercâmbios, dos mais diversos, nessa vida, para eu lidar com eles sem tropeços e sem choro. O que dei, naquele 29 de Agosto de 2010, foi o primeiro passo. Começou em 26 de Agosto de 2011 o segundo round. Eu estava com muita saudade do aconchego da minha família e dos meus amigos. Com saudade dos nossos dias quentes e ensolarados. Com saudade de poder fazer planos para o futuro, já que minha experiência em UK tinha contornos definidos e data para acabar. Mas o retorno ao Brasil foi como um soco no estômago.

Eu não me senti bem recebida, por incrível que pareça. Explico. Ao entrar no avião, na conexão em Lisboa, sofri um choque muito grande de realidade. No voo, só brasileiros, aquela algazarra, funk rolando solto dos gogós e nenhum sinal da língua inglesa, nem mesmo dos comissários de bordo. A minha primeira reação, por costume, foi falar inglês com eles, que me disseram, em seguida “tudo bem, pode falar português aqui”. Tudo bem nada!!! Fora que, quando eu entrei no avião, senti aqueles olhares de “quem é essa menina estranha?”, porque eu não estava vestida como eles. Senti os mesmos olhares no aeroporto de Guarulhos. Eram eles me julgando ou eu, que já não me sentia tão “brasileira”??? Não sei… Só sei que foi um voo péssimo.

Eu, que estava louca para, pelo menos, ver as luzes da Sampa noturna lá do alto, nem isso pude. Estava tudo encoberto, no melhor estilo inglês – que paradoxo! No aeroporto, fui a última a entrar no freeshop porque minhas malas não chegaram. Ficaram presas em Lisboa por culpa da conexão em cima da hora, e só soube disso quando não havia mais nenhuma mala na esteira. Ok, fiz as compras encomendadas na loja, já sem paciência. Quando saio pelo portão de desembarque… cadê??? Não havia ninguém lá.

Fui até o orelhão e liguei pro meu pai. “Cadê o senhor?”. “Eu tô aqui!”. “Não, o senhor NÃO está aqui…”. Meu pai estava no portão errado, claro. Eu que fiquei lá, esperando por ele. Tinha uma bandeira do Brasil na minha bolsa de mão e um óculos cuja armação levava as cores da bandeira britânica. Não saquei nenhum dos dois. Tinha perdido todo e qualquer tesão. Eu sabia que a família toda não ia me buscar, parece que essa solicitação veio do quartel lá de casa. Mas não imaginei que seria uma recepção tão insonsa como aquela…  Claro, encontrar meu pai – com ou sem algazarra – foi emocionante, pois eu não o via há um ano. Mas encontrar minha cidade, não.  Fomos no carro falando já sobre problemas, e eu observando aquela megalópole que, pela primeira vez, me pareceu tão feia e sem graça.

Seguimos de carro direto para a nossa casa em Bom Jesus dos Perdões, onde rolaria uma welcome party no sábado. Eu achava – uma das poucas expectativas que criei – que estaria todo mundo lá no mesmo dia (cheguei na sexta-feira), mas por um problema de cálculo da minha mãe, ela achou que eu chegaria no sábado e achou que não dava mais tempo de remarcar. E chegar em Perdões também não teve graça. Tudo igual… Encontrei minha mãe, minha irmã e mais alguns poucos parentes. Estava tão cansada e abatida que nem tive muitas forças para me alegrar com o reencontro o quanto eu gostaria.

Caminhei pela casa. Tudo igual… Quando entrei no quarto, chorei. Foi um choro estranho, de tristeza por tudo estar igual quando eu queria que tudo estivesse diferente, para que tudo recomeçasse junto comigo e me acompanhasse. Mas só eu havia mudado, por fora e por dentro. O resto, continuava ali, anunciando que o retorno seria traumático. Passar um ano vivendo o novo TODOS os dias, sem exceção, e voltar para o velho e (aparentemente) imutável foi um choque maior do que eu imaginara.

Sábado foi bacana, com momentos emocionantes com a chegada dos meus avós, do meu irmão, da minha prima e das minhas amigas. Aos poucos, todo mundo foi chegando e, eu, respondendo às mesmas perguntas over and over again. Estava aérea, sem muito saco para muito papo. Queria ficar quieta, no meu canto, talvez dormir até todo aquele estranhamento passar. Eu precisaria ter dormido umas três semanas direto…

Os dias que se seguiram à minha chegada foram dias anestesiados. Eu não sentia NADA. O máximo que fiz foi desfazer as malas (que chegaram no domingo), arrumar minhas latas e garrafas de cerveja na prateleira e dar um tapa no quarto. Não olhei fotos, mal falei com amigos. Caminhava pela cidade sem curiosidade, sem vontade, vazia… Uma sensação de estranhamento. O novo velho… Não achei que seria tão ruim assim, logo de cara. Nem rolou a euforia do retorno. Eu, na verdade, não sou uma pessoa eufórica. Nem o começo da minha vida em Londres foi tão eufórico. Mas esse estado anestesiado me assustou.

As coisas começaram a melhorar quando fui para João Pessoa passar uma semana perto do mar e, logo em seguida, comecei a trabalhar. Pegar metrô todo o dia ajudou bastante, ainda mais com a inauguração da linha amarela, cujos trens me lembravam aqueles que me levaram de um lado para o outro nas Europas Central e Leste, durante meus mochilões. Ainda assim, procurava pouco as pessoas (me dediquei praticamente apenas aos meus pais), explorava apenas 0,9% da cidade. Apatia.

Passado um mês, me sentia mais adaptada e feliz por estar de volta. Uma felicidade meio sem explicação. Escancarava os dentes ao ouvir alguém tocando piano na estação Santana, ao experimentar um dia de Sol, ao conversar com um poeta no metrô, ao observar as pessoas. Não era todo o dia assim, mas tive muitos arroubos de felicidade depois do primeiro mês. Começaram os desafios profissionais, escolhas a tomar em tão pouco tempo. Mas passei por elas, fiz o que achava certo e , pela primeira vez, acho que ouvi minha intuição. Meu trabalho estava interessante e foi se estendendo (era um job de apenas um mês, a princípio), eu havia traçado perspectivas para 2012 e estava contente. Fui à praia – Ubatuba, finalmente – e senti minha bateria se recarregar. Só não voltei a Perdões. Decidi que só pisaria lá quando a reforma estivesse concluída, porque eu precisava daquela casa nova. Na velha, eu não cabia mais. Não por falta de espaço. Caber, depois de um intercâmbio, toma outros significados. Passa a exigir uma forma nova, mais aberta, desconhecida.

Tudo correu razoavelmente ok até completar três meses. Bem na virada de Novembro para Dezembro, a crise começou. Percebo, agora, que estou passando pelo mesmo processo de adaptação pelo qual passei em Londres. Lá, Outubro e Novembro foram meses melhores, quando experimentei coisas novas, me arrisquei, ainda que timidamente. Mas a virada para dezembro, não. Mais frio, a proximidade das festas. Foi um mês muito difícil, quase tanto quanto Setembro, o primeiro mês lá.

Eu esperava por dificuldades, por crises quando voltasse. Mas, sinceramente, não esperei que fosse assim. Uma das coisas mais duras é ver as pessoas  voltando às suas rotinas quando você ainda não tem uma. Você não sabe mais qual o seu lugar e o seu papel da vida dos amigos mais próximos. Eles têm novos amigos, novos gostos, novos costumes e viveram experiências das quais você não participou. Isso dá medo. A gente acaba até esquecendo o quanto ELES devem ter tido medo de toda a novidade que eu carregaria dentro de mim quando voltasse.

O problema é que aquilo que eu trouxe do exterior vive em mim como um vírus incubado. Não dá pra viver gostos e costumes aqui porque o lugar é diferente, as opções são diferentes e as pessoas que construíram aquilo com você já não estão mais ao seu lado. A experiência acabou. Fim de um ciclo. O novo é parte de você, sempre será, mas não se expressa assim tão fácil. Isso também gera um conflito enorme! Você sente, literalmente, que voltou pra sua terra natal sem alguns pedaços. Você não está mais 100% ali. E qual a solução que buscamos? Tapar esses “buracos” com coisas daqui. Você quer ter a família mais perto, os amigos mais perto, recuperar as coisas que sempre gostou de fazer mas também teve de manter incubadas quando o exterior não lhe oferecia as condições para vivê-las.

O problema disso tudo é fácil de apontar: na vida das pessoas do seu convívio próximo, talvez não caiba mais viver contigo aqueles gostos e costumes que você buscou ao retornar, para tomar de volta a sua “identidade”, meio manca… Talvez não caiba mais aquela participação que um sempre teve na vida do outro. É necessário construir praticamente do zero. E foi aí que eu entendi por que a migração de retorno pode ser mais difícil que a de partida: começar de novo no velho conhecido é muitíssimo doloroso. Gera culpa. Gera vergonha. Gera incompreensão. Lá fora, você era a intercambista, convivendo com intercambistas, e as dificuldades eram esperadas e compartilhadas.  Se você demora a se encaixar, você se dá uma, duas, mil chances, pois está num país novo, cultura nova, pessoas novas. You’re on your own.

Aí, a psicóloga autora do livro que citei no começo, faz a seguinte pergunta: “Quando você estava no intercâmbio, cada dia não era uma novidade? Você não se esforçava para conquistar seu espaço, suas amizades, a confiança das pessoas? E por que aqui haveria de ser diferente?”. Concordo, concordo. Mas como entender e compartilhar essas mesmas agruras no país “velho”, na cultura “velha”, com pessoas “velhas”??? Esse é o meu território, poxa! Ops… será?

Ainda estamos no começo de Dezembro, mas já sei que a minha resolução para 2012 será a mesma que fiz para 2011: superar as dificuldades, não choramingar e viver intensamente. Isso exige esforço. Eu me esforcei muito em Londres e as recompensas foram incríveis. O desafio é incorporar aquela mesma postura. Ainda que seja custoso, é preciso respirar fundo e admitir que, uma vez “Cidadão do Mundo”, sempre “Cidadão do Mundo”. Admitir que você nunca estará 100% em lugar nenhum, como já esteve antes de partir pela primeira vez. A verdade é que somos estrangeiros toda a vez que somos “recém-chegados”.

 

One Response to “Meu segundo intercâmbio”

  1. Tamy Says:

    Fiquei uns bons pares de minutos refletindo após ler seu texto. E sabe o que me ocorreu? O enorme poder da palavra “mudança”. Ela nos traz insegurança, medo, ansiedade, frio na barriga, mas, principalmente – ao meu ver – ela nos traz perdas, muitas perdas. Porque “mudar” significa trocar algo existente e real ao qual, muitas vezes, estamos acostumados, por um algo não necessariamente novo, mas algo que não faz parte do atual contexto em que vivemos. E é dessa forma que eu, tão adepta às mudanças como sou, enxergo esse segundo intercâmbio, sabe? Assim como ir pra Londres foi uma grande perda de um pacotão que te acompanhava em sua trajetória aqui em Sampa, o retorno às terras tupiniquins também simbolizou uma perda enorme do pacotão que você, de forma tão batalhadora e determinada, conquistou do outro lado do oceano.

    Porém, ainda acho que, no caso deste segundo intercâmbio, as perdas parecem ainda mais irreversíveis, pois você tem a consciência de que se tratava de uma experiência com prazo de validade e sem grandes possibilidades de um retorno tão breve, não é? E como deve ter sido custosa toda a luta diária que você travava consigo mesma buscando a superação de limites, amarras e a própria busca por novos elos que compõe essa corrente do “ser eu”! E então, depois de tanta peleja, onde está tudo aquilo? Por que não há mais o contato diário com o novo que me fazia ter um motivo para continuar na batalha? Aparentemente, acabou! Aqui (sua terra), a impressão pode ser a de não haver a real necessidade de viver ativamente, pois é fácil e possível apenas sobreviver… apenas ir deixando a vida te guiar sem grandes emoções ou obstáculos para superar. Não sei se meu pensamento ruma a alguma lógica, mas é o que talvez me ocorreria estando em seu lugar.

    Se posso dizer algo a servir de conselho? O que sempre digo: a vida é um ir e vir danado de emoções (novas ou aparentemente repetidas), mas todas elas se ressignificam a partir da maneira como eu – sujeito agente – decido encará-las. Quando uma visão parece sem significado aparente, talvez seja a hora de virar o quadro de cabeça para baixo e tentar novamente. Se ainda assim não funcionar mudar de posição o alvo da visão insignificante, por que não plantar uma bananeira você mesma?


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