Minhas Folhas de Relva

percepções do cotidiano em letras livres

Sala de aula vazia em Santa Maria 28/01/2013

Vendo várias manifestações de colegas jornalistas sobre o sensacionalismo da imprensa ao cobrir a tragédia de Santa Maria – aquela retórica pergunta para uma mãe sem filho “como você está se sentindo?”, imagens de corpos, de caixões – fico pensando em como os repórteres e editores deveriam atuar para fazer direito e, ainda assim, passar a tão necessária emoção.

Hoje, assisti a uma matéria da Band sobre o incêndio e gostei da passagem que a repórter fez. Amigos de um jovem chamado Leandro o chamavam de “herói” porque ele entrou novamente na boate na tentativa de salvar a namorada e um amigo, mas não voltou. A repórter, então, gravou numa sala de aula da UFSM dizendo algo como “mas o que a universidade queria não eram alunos heróis. Ela queria ver sair, destas cadeiras, engenheiros, médicos, advogados, veterinários, professores…”. E o câmera mostrava as cadeiras vazias.

O Globo deu na capa a foto de uma mãe abraçando o caixão do filho. É forte, mas acho que a imagem de uma sala de aula vazia da UFSM diria muito mais. Emocionaria ao fazer o leitor olhar a foto e refletir sobre ela para além do imediatismo do que o olho capta. O que representa uma sala da aula vazia numa cidade universitária depois de um incêndio que matou tantos estudantes? Uma foto como essa me pegaria da mesma forma como me pegou o texto de outra colega jornalista, quando ela disse:

“Eu não tinha amigos nessa tragédia, não conheço nenhum desses jovens que faleceram. Mas compartilho dos seus sonhos. Sei que eles queriam acordar amanhã de manhã e tomar um café quente. E aprender uma coisa nova. E abraçar seus pais. Sei também que eles faziam muitos planos. E queriam viajar. E sentir o coração novamente se apaixonar. Eles são eu e vocês.”

Talvez, para quem é mãe/pai, a imagem da mulher desesperada sobre o caixão deva tocar fundo. Deva mexer com as entranhas. Mas ela não fala de sonhos. Não fala dos jovens, e sim dos pais que ficaram sem eles. A grande tragédia de Santa Maria é a perda de 231 corações que batiam na ânsia do dia seguinte, que faziam planos. Como eu e você. Tenhamos nós 20 ou 70 anos. Sejamos nós apenas filhos ou também pais. Quando um post de blog ou uma matéria de jornal ou de TV faz você se aproximar assim das vítimas da tragédia, vendo-as como “eu” e não como “o outro”, aí sim aquelas palavras fazem você tirar algo de válido dos fatos. O resto é puro fast food de notícias. Não deixa gosto de nada.

Sala de aula

 

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