Minhas Folhas de Relva

percepções do cotidiano em letras livres

Quando o ralinho de pia faz falta… 04/01/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 7:22 PM

Wanja olhou para a caixa com cara de interrogação. Que encomendas são essas? Eu pedi pra minha mãe aproveitar o envio do álbum de casamento e mandar mais umas coisinhas… Agulha e linha, ralinho de pia, vassourinha de mesa – assim mesmo, quase tudo no diminutivo, do jeito que a gente gosta no Brasil😉

A vassourinha em ação surpreendeu o Wanja, que jamais havia visto algo parecido, tão simples e tão eficiente. Tecnologia brasileira, Bäbe! Coisas que você jamais verá na Alemanha. Ou melhor, coisas que até agora eu não vi. Talvez existam, e eu que precise de mais uma vida aqui pra descobrir.

Comecei a nova temporada no Blog com essa historinha porque ela me fala de uma coisa que é evidente no choque que sofremos ao mudar de lugar no mundo: as nossas necessidades (que são culturais e afetivas).

Ralinho de pia foi só uma coisa útil e banal que coube na caixa do correio. Se pudesse, eu teria pedido outras coisas. Eu pediria coisas todos os dias. Um jogo de tabuleiro, meu travesseiro, um maiô de natação… Minha cama-box, um churrasco em Perdões, picanha, um dia inteiro bebendo Brahma, um passeio na Silva Telles com a minha mãe… Meu cabeleireiro na Rua Augusta, frango à passarinho com cebolinha, copo americano, Trindade… Viajar com o carro do meu pai, tomar café da manhã na padaria Bella Buarque, comer comida por quilo, pão de queijo…:/

Algumas dessas coisas realmente me fazem falta aqui. Porque eu não consigo achar equivalente pra elas. O travesseiro é grande e esquisito, o maiô é caro e cobre a bunda toda (nunca nem tive coragem de experimentar!), cama-box parece ser artigo de luxo, não há cabeleireiros que cortem cabelo cacheado, nunca vi uma loja de brinquedos pra comprar um joguinho pra jogar com o marido.

E eu me sinto perdida.

É muito difícil viver num lugar onde você não sabe onde comprar um kit com linha e agulha. Não conseguir encontrar ou fazer o básico, aquilo que, antes, você tinha certeza de ‘onde’ e ‘como’.

Eu vou ter que deixar de precisar dessas coisas? Ou eu vou achar outros caminhos até elas? Ou outras necessidades serão criadas?

Em 2010, quando fui pra Londres, descobrir essas diferenças era uma diversão. Mas agora, na Alemanha, perceber as diferenças dá medo. Porque não se trata mais de um ano de intercâmbio. Se trata de uma vida completamente nova, sem prazos e talvez sem volta. Em 2010, eu era criança, no sentido de inocente e flexível. Olhando agora, em 2016, vejo que, às vezes, “crescer” não faz a gente melhor.

O desafio de 2016 será equacionar o desapego das necessidades e das comodidades brasileiras (o saber o ‘quê’, o ‘onde’ e o ‘como’ das coisas, sempre) à abertura para abraçar coisas e jeitos novos de viver, pelas regras alemãs. E com espirito de intercambista – que, afinal, é o que nós somos, sempre.

 

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