Minhas Folhas de Relva

percepções do cotidiano em letras livres

Room 22/03/2016

Filed under: Sem categoria — Aline Moraes @ 6:46 AM

Não se trata de dizer se a cabana onde por anos viveram Jack e Joy no filme “Room” era pequena demais, suja demais, desumana demais. Aquilo era o mundo para Jack. Ele acordava e dava bom dia pra cada móvel, porque aquilo era a realidade dele. Todo o resto eram só imagens em duas dimensões na TV.
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room
Quando mãe e filho (sempre pensei que fosse filha!) conseguiram escapar, se iniciou um processo estranho, de negação. Jack sentia falta do “Room”, tudo o que estava no mundo lhe era estranho e ele não queria experimentar essa outra realidade. Ele queria a cama de Room. Passado o primeiro momento de alívio e felicidade por ter se livrado do cativeiro, Joy começa a pensar e lamentar o que perdeu naqueles sete anos, e não aquilo que ganhou ao ter liberdade.

Levou tempo para que Jack aceitasse que existia outro mundo. Levou tempo para que Joy renascesse. Havia sempre algo que ligava ambos ao Room, seja pelo conhecido confortável, seja porque, lá, o sentimento era um misto de sobrevivência e esperança e luta que dava pouco espaço para arrependimentos ou “e se”s.

Eu sou Jack. Sinto falta do meu Room, do universo no qual eu vivi por 28 anos da minha vida. Sinto falta das coisas para as quais eu dava bom dia. Da minha cama. Dos meus pais. Assim como Jack, eu achava que o mundo era, basicamente, nós três. Todos os outros elementos se somavam e se somariam a essa base.

Eu sou Joy. Para mim, meu universo – ainda que já bastante grande – precisava ser expandido. Queria tomar grandes goles de espaço, e não ficar no “Room” pra sempre. Mas, uma vez fora dele, me vi num poço de lamentações pelas perdas. Perda, sobretudo, do que me movia. No Room, Joy lutava para sobreviver, para desenvolver um plano, para sair de lá. Havia propósito, apesar de tudo. Estar fora do Room era estar vazia.

O processo se conclui quando Jack pede para visitar Room. Ele vê as paredes, os móveis, os desenhos ainda intactos dentro do guarda-roupa-cama. Mas muita coisa já não está lá. Tudo está diferente. Era a porta aberta o elemento mais estranho. Não era Room daquele jeito. Joy pergunta se Jack quer mesmo fechar a porta para se sentir lá de novo. Jack diz não. Ele se despede. Room não existe mais. Room é onde ele nasceu, Room é um pilar, Room é um pedaço. Mas não é tudo.

Todos nós temos nosso Room. Bom ou ruim, talvez as duas coisas. Que liberta e aprisiona. Uma vez fora dele, nos perdemos. Mas também ganhamos espaço. Fora e dentro. É preciso deixar a porta aberta, olhar pro Room com uma luz diferente e se despedir. Sem, por isso, negá-lo.

 

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