Minhas Folhas de Relva

percepções do cotidiano em letras livres

Verdade vestida e cozida 06/06/2013

Filed under: Comportamento,Cotidiano,Saúde — Aline Moraes @ 12:50 AM
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verdadeÀs vezes, é preciso editar a verdade. Como se edita um texto de TV e a história se conta pela metade. Detalhes ficam de fora. Até detalhes importantes, mas não comprometedores. Às vezes, é preciso fazer o mesmo com a verdade.

Eu sempre falo a verdade. Nem penso. Minha mãe vive me dizendo que eu tenho que pensar melhor antes de fazer isso. Que nem sempre a verdade é necessária. Como quando me perguntaram no Peru se eu já tinha ido pro Rio. Eu disse que sim, mas só por três dias, não conhecia lá direito. Ela me deu um cutucão depois, dizendo que eu não precisava ter falado tudo assim, tim tim por tim tim. Por que deixar o gringo pensando que eu mal conhecia um dos principais cartões postais do meu país? E por que se importar com isso? – era o que eu pensava.

Discordo da minha mãe no caso que acabei de contar. Mas hoje, percebi como a verdade pode e deve ser editada, em alguns casos. Fui fazer minha matrícula na natação no Sesc. Pra começar as aulas, eu tinha que ter uma avaliação clínica. Resolvi pagar R$20 e fazer no Sesc mesmo, pra agilizar. Na hora de preencher o formulário, eu disse que tinha um probleminha de coração, que era taquicardia, que eu tomava remédio. Nem me toquei do que aconteceria em seguida: claro, fui reprovada no exame clínico. A médica pediu testes ergométricos pra saber se eu tenho mesmo condições de fazer esforço físico.

Cardiologista nenhum me disse que eu deveria evitar exercícios físicos. Eu, aliás, sinto que isso vai me ajudar com o estresse (que é pior do que esforço físico como fator desencadeador das crises de coração indo a mais de 200 batimentos por minuto…). Então, eu poderia ter deixado a taquicardia pra lá, mas não. Contei e agora vou pagar o preço (em reais e em tempo perdido) pela verdade sem cortes.

Às vezes, Mamis tem razão… A vida precisa de filtro (e não é o do Instagram).
Da taquicardia, só saberão aqueles que não vão me cobrar nada por ter dado a informação…

 

Chocotone perdido na memória 05/03/2013

Filed under: Comportamento,Cotidiano,Saúde — Aline Moraes @ 10:42 PM
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Vó e VôVó Glória ofereceu uma fatia de chocotone ao Vô Antônio hoje. Ele é diabético, então não pode exagerar. Comeu aquele único pedaço com tanto gosto, como se experimentasse pela primeira vez a sobremesa. Não era a primeira, claro. Vô Antônio já tem 80 anos. Já comeu esse bolo de Natal antes. Mas, para sua memória, era sim a estreia. Meu avô tem Alzheimer e se esqueceu do sabor do chocotone

Mamis me contou essa cena hoje, ao chegar do trabalho, com um timbre de tristeza na voz. Ela sofre muito com a condição que a idade tem imposto ao seu pai. Pai esse que foi sempre tão ativo, com a cabeça tão boa… Já eu, ao ouvir a história, reagi de forma diferente. Pensei na oportunidade que a perda da memória dá de vivermos novamente as coisas com a intensidade da primeira vez. Talvez uma forma de enxergar a doença de forma menos catastrófica. Mas, de fato, fiquei imaginando, com um sorriso, meu avô abocanhando e saboreando aquele pedaço como a coisa mais gostosa do mundo. Uma coisa nova. Não há nada na vida como a novidade. Pensei em como eu gostaria de viver algumas coisas de novo como se fosse a primeira vez… Que vovô possa, de alguma forma, aproveitar esses momentos.

Mas o sorriso dá lugar à expressão confusa da interrogação quando me ocorre: qual o valor da novidade sem a lembrança? As coisas só ganham sentido na memória.