Minhas Folhas de Relva

percepções do cotidiano em letras livres

Chocotone perdido na memória 05/03/2013

Filed under: Comportamento,Cotidiano,Saúde — Aline Moraes @ 10:42 PM
Tags: , , , , , , ,

Vó e VôVó Glória ofereceu uma fatia de chocotone ao Vô Antônio hoje. Ele é diabético, então não pode exagerar. Comeu aquele único pedaço com tanto gosto, como se experimentasse pela primeira vez a sobremesa. Não era a primeira, claro. Vô Antônio já tem 80 anos. Já comeu esse bolo de Natal antes. Mas, para sua memória, era sim a estreia. Meu avô tem Alzheimer e se esqueceu do sabor do chocotone

Mamis me contou essa cena hoje, ao chegar do trabalho, com um timbre de tristeza na voz. Ela sofre muito com a condição que a idade tem imposto ao seu pai. Pai esse que foi sempre tão ativo, com a cabeça tão boa… Já eu, ao ouvir a história, reagi de forma diferente. Pensei na oportunidade que a perda da memória dá de vivermos novamente as coisas com a intensidade da primeira vez. Talvez uma forma de enxergar a doença de forma menos catastrófica. Mas, de fato, fiquei imaginando, com um sorriso, meu avô abocanhando e saboreando aquele pedaço como a coisa mais gostosa do mundo. Uma coisa nova. Não há nada na vida como a novidade. Pensei em como eu gostaria de viver algumas coisas de novo como se fosse a primeira vez… Que vovô possa, de alguma forma, aproveitar esses momentos.

Mas o sorriso dá lugar à expressão confusa da interrogação quando me ocorre: qual o valor da novidade sem a lembrança? As coisas só ganham sentido na memória.

 

Velha Infância Nova 11/01/2013

Filed under: Comportamento,Cotidiano — Aline Moraes @ 8:50 AM
Tags: , , , ,

Eu tive uma infância fantástica! Fechavam a rua de casa pra jogar volei, basquete, bolinha de gude, peão. Meu pai fazia e empinava pipa com a gente. Eu e ele andávamos até de kart pela vizinhança (ele construiu o dele e o meu!). Eu tinha o cabelo (na época, também cacheado) todo embaraçado, o joelho todo ralado, a cara meio suja… Ossos do ofício de brincar de ser criança. Era bom, viu…

Foi por ter vivido tempos tão bons nos Anos 90 que eu me surpreendi nesse Final de Ano. Há 18 ou 19 anos que a família Moraes passa o Reveillón junta, numa festa chamada Fecofama (Festa de Confraternização da Família Moraes e Amigos). Na minha época de criança, a gente fazia até gincana, tipo “Passa ou Repassa”, com direito a “torta na cara” e tudo! Mas a criançada cresceu e o perfil da festa mudou. Meus primos mais novos são da era do videogame, xbox, wii, computador, celular, tablet. Não querem mais brincar de “caça ao tesouro” na lama. Mas na Fecofama 2012 foi diferente…

Não sei o que aconteceu, se não levaram os videogames ou se simplesmente se esqueceram deles (prefiro pensar na segunda opção). Fato é que passei os quatro dias do feriado vendo meus primos jogando bola, peteca, brincando na balança, na piscina, na fita de slackline que eu leveie até empinando pipa (junto com meu pai, claro! hehe)!!! Voltamos no tempo e eles viveram um pouco da nossa velha infância. Tadinha da tecnologia, não fez falta…

Como na época em que eu pintava minhas bonecas e inventava mil brincadeiras, vi minha prima-sobrinha Beatriz com uma maleta de tintas… De repente, apareceu nas costas do meu pai uma espécie de mapa-mundi desenhado. “É tatuagem“, disse ela. Até mostruário ela fez, com caveirinhas, flores, corações… E essa foi a diversão dela durante o feriado: desenhar, pintar, soltar a imaginação e, assim, ficar próxima da família, como criança nenhuma com um tablet na mão consegue fazer hoje em dia. Eu fiquei surpresa. Até diria emocionada! E a bichinha tem talento!!!
***

Este slideshow necessita de JavaScript.

Foi um Ano Novo muito envolvente. Estar com uma família dessas renova as esperanças nas centenas de dias que se seguirão, nos valores já desacreditados, na infância, num mundo fantástico – mas não virtual. Ser feliz é possível e não exige muito. Só a simplicidade.

 

Pais Separados 13/06/2012

Filed under: Cotidiano — Aline Moraes @ 9:43 PM
Tags:

Devia ser essa a situação. O que mais explicaria aquele homem, de calça e camisa sociais, brincando com um menininho de uns sete anos numa mesa do McDonalds em plena noite de quarta-feira? Ou ele é fanático por lanches ou acabara de buscar o filhinho na escola ou na casa da ex. Aquelas seriam as poucas horas de que dispunha para dar alguma atenção ao pequeno, ávido por brincar de lutinha com os bonecos do McLanche feliz.

Seria melhor em casa? Talvez. Mas para a criança, qual o problema de ser numa mesa com restos de gergelim e guardanapos manchados de gordura da batata frita? Eu podia ver que o filho estava se divertindo. Já o pai…

Só o vi de lado, mais de costas do que de lado, na verdade. Mas bastou. Podia traduzir suas espaldas tensas, o cotovelo apoiado quase na quina da mesa, a cabeça pendendo um olhar terno para o filho, pelo filho. Olhar de quem preferiria não  estar ali. Mas havia se acostumado, era o jeito.

Compadeci-me daquele homem. Tanto que os gritinhos imitando golpes de luta não me incomodaram como deveriam. Entendi que aquele era um momento sagrado. Quase me sentei àquela mesa para brincar também. Mostrar que, se até eu, que detesto criança, senti a beleza da cena, era sinal de que ali havia amor de pai de verdade. Mesmo de pais separados.

 

É de família… 10/05/2010

Filed under: Comportamento,Cotidiano — Aline Moraes @ 3:07 PM
Tags: , , , ,

Lembro-me de como foi estranho o primeiro Dia das Mães em que minha Mamis recebeu três presentes. Até 2005, eram só o meu e o do meu irmão, Eduardo. Sobre a cômoda do quarto dos meus pais, estava uma espécie de porta retrato feito à mão, com papel cartão. Azul e laranja. Escrito à canetinha “Mamãe eu te amo”. Na foto, uma menininha. Não era eu.

Há cinco anos, eu ganhei uma irmã. A Pâmela nasceu para a gente aos 12 anos, num processo chamado de adoção tardia (quer saber mais sobre? Leia a matéria e uma entrevista que fiz para a revista CRESCER). Ela já sabia falar, andar, comer sozinha, reclamar, pedir, ficar contente, ficar emburrada e negociar deveres e vontades. Não foi fácil para mim aceitá-la, ainda que eu visse a atitude da minha mãe como algo muito bonito (e a apoiei nessa!) e achasse a Pâmela uma menina legal. Não foi nada fácil.

Minha mãe sempre foi “na dela”, com um bloqueio para dar grandes demonstrações de afeto, como beijos mais demorados e abraços mais apertados. Sabia que era o jeito dela. Mas quando vi a Pâmela dando nela um abraço maior do que eu jamais ousara dar, fiquei mal. Vi de soslaio, da porta do meu quarto, a cena na sala de TV.

(more…)