Minhas Folhas de Relva

percepções do cotidiano em letras livres

Onde a minha vida cabe 17/03/2013

Filed under: Cotidiano — Aline Moraes @ 7:04 PM
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Claro que ainda faltam as roupas... hehe

Claro que ainda faltam as roupas… hehe

Empacotei as coisas hoje. Não, ainda não é dia de carreto, mas como toda mudança comigo é gradual, o quarto já está quase vazio. Lá se foram as cervejas tão adoradamente colecionadas, os livros,  alguns poucos CDs e DVDs, as relíquias reunidas desde 2005, fotos antigas, alguns singelos recados em papel, mimos de Londres e da Europa.

Embalei também muitas recordações. Sem caixa de papelão nem fita crepe. Percebi quanta coisa eu havia juntado desde 2008, ano em que a família se mudou para o apê em Santana. Quanta coisa eu havia guardado com medo de esquecer. Reabrindo os pacotes já empoeirados, fui implacável, joguei a maioria da papelada fora. Não sem antes dar aquela olhada em cada coisa, absorver delas o cheiro do tempo.

É nessas horas de mudança que percebemos que a vida não precisa de muito espaço. Aquilo de que eu necessito já está comigo. Alguns pequenos detalhes que se desmancham com o passar dos anos podem ser refeitos com essa olhadela no passado. E são suficientes. Aspirei aquelas memórias para durarem para sempre. E a carcaça que delas sobrou vai embora. Vai…

 

Chocotone perdido na memória 05/03/2013

Filed under: Comportamento,Cotidiano,Saúde — Aline Moraes @ 10:42 PM
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Vó e VôVó Glória ofereceu uma fatia de chocotone ao Vô Antônio hoje. Ele é diabético, então não pode exagerar. Comeu aquele único pedaço com tanto gosto, como se experimentasse pela primeira vez a sobremesa. Não era a primeira, claro. Vô Antônio já tem 80 anos. Já comeu esse bolo de Natal antes. Mas, para sua memória, era sim a estreia. Meu avô tem Alzheimer e se esqueceu do sabor do chocotone

Mamis me contou essa cena hoje, ao chegar do trabalho, com um timbre de tristeza na voz. Ela sofre muito com a condição que a idade tem imposto ao seu pai. Pai esse que foi sempre tão ativo, com a cabeça tão boa… Já eu, ao ouvir a história, reagi de forma diferente. Pensei na oportunidade que a perda da memória dá de vivermos novamente as coisas com a intensidade da primeira vez. Talvez uma forma de enxergar a doença de forma menos catastrófica. Mas, de fato, fiquei imaginando, com um sorriso, meu avô abocanhando e saboreando aquele pedaço como a coisa mais gostosa do mundo. Uma coisa nova. Não há nada na vida como a novidade. Pensei em como eu gostaria de viver algumas coisas de novo como se fosse a primeira vez… Que vovô possa, de alguma forma, aproveitar esses momentos.

Mas o sorriso dá lugar à expressão confusa da interrogação quando me ocorre: qual o valor da novidade sem a lembrança? As coisas só ganham sentido na memória.

 

O Encontro 28/02/2013

Filed under: Comportamento,Cotidiano,Cultura — Aline Moraes @ 8:49 AM
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“Nos anos 70, Marina Abramovic viveu uma intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando todo tipo de performances. Quando sentiram que a relação já não valia aos dois, decidiram percorrer a Grande Muralha da China; cada um começou a caminhar de um lado, para se encontrarem no meio, dar um último grande abraço um no outro, e nunca mais se ver. 23 anos depois, em 2010, quando Marina já era uma artista consagrada, o MoMa de Nova Iorque dedicou uma retrospectiva a sua obra. Nessa retrospectiva, Marina compartilhava um minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ulay chegou sem que ela soubesse, e foi assim.”

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Puxa… chorei. Me imaginei num encontro assim daqui 20 anos. Em silêncio e com os olhos marejados por uma intensa história de amor de 2 anos e meio.

Encontrei esse vídeo no Facebook, e algumas pessoas comentaram que a reação de ambos demonstra que talvez tenha sido um erro achar que a relação já não valia a pena. Não sei… Aquelas lágrimas podem não ser por algo que foi abandonado quando não deveria ter sido, e sim pelo passado que não pode ser recuperado – e isso dói. Mesmo numa relação já esgotada. “Eis a verdade banal que descobrimos, frustrados, ao fim de cada encontro: toda memória é um luto pelo que vamos deixando para trás.”

E eles fizeram um minuto de silêncio. Em memória pela relação. E em luto pelo passado.