Minhas Folhas de Relva

percepções do cotidiano em letras livres

Mundão véio sem portera – parte 2 28/03/2010

ColheitaNão é só de contagem de pés de soja que vive um jornalista que participa do Rally da Safra. Onde é que estão os produtores? Agricultores? Homens do campo? Para os agrônomos, colher o maior número de amostras era o mais importante. No meu caso, o mais importante era poder conversar com quem plantou, quais as suas expectativas para a safra, o que ajudou, o que atrapalhou etc e tal. Estava atrás deles como fã que persegue o ídolo quando chega à cidade.

Comecei a caçar nuvens de poeira de colheitadeiras, na esperança de eles estarem lá, ficalizando a colheita. Implorava para que fôssemos atrás – afinal, minha matéria dependia disso. No terceiro dia de Rally, finalmente consegui! Conversei com Rodrigo Nicodemus, um jovem agricultor de 26 anos, de Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Ele lida com a terra há nove anos e herdou a fazenda, de 405 hectares, do pai. Antes, tudo aquilo era pasto. Como é uma área muito fértil, resolveram mudar o uso.  Pecuária convertida em lavoura éDentro da colheitadeira uma tendência nessa região do Noroeste de Minas.

Fagner Valiatti não herdou a terra de ninguém. Em Cristalina, também em Minas, ele arrendou 450 hectares para soja e outros 500 hectares onde plantou milho. Trocando nos miúdos que o povo da cidade conhece, Fagner como que alugou esses quase mil hectares de terra. A diferença é que, muitas vezes, o pagamento é feito com a própria produção. “Terra daqui mesmo, só debaixo das unhas”, me disse ele, rindo. O rosto barbudo de Fagner mascara sua juventude – ele tem apenas 27 anos e lida com a lavoura desde os 13, ajudando o pai, que também era agricultor em Xanxerê, Santa Catarina. Há dois anos, o pai de Fagner faleceu e o filho decidiu tentar melhores oportunidades em Minas. Levou a mãe junto e parece que tem se dado bem por ali.

Enquanto em algumas regiões de Minas a chuva castigou, em outras os Grãos de sojaveranicos (ou estiagem) é que deram dor de cabeça para os produtores. Mas parece que sobre a lavoura de Fagner foi colocada uma redoma. Nenhum problema climático atingiu sua plantação. Pra completar, ele controlou direitinho a ferrugem (a principal doença da soja) e investiu em tecnologia de irrigação pro milho. Dizia que estava colhendo 196 sacos de milho por hectare, o que é uma produtividade muito, mas muito boa. Pra soja também: 63 sacos por hectare, como ele estava esperando, está acima da média. Fagner se mostrou orgulhoso do trabalho que havia feito – tão bom que não aceitou posar para uma foto pra a Globo Rural. Não foi só culpa da timidez, não. Fagner disse que os produtores vizinhos ficariam chateados com ele se aparecesse todo sorridente na revista, dizendo que a safra estava boa quando outros tantos tiveram problemas. Não tive como insistir mais. O agricultor tem um jeito sereno, mas firme, de se impor em situações que não o deixam confortável. Pude perceber.

No mesmo dia em que conheci Fagner, entramos na Fazenda Santa Rita de Cássia para colher umas amostras. A porteira estava aberta e, aparentemente, não havia ninguém na sede. Seguimos. Depois de parar a caminhonete  e começar a coleta, apareceu um moço de bicicleta. Era funcionário da fazenda, perguntando o que estávamos fazendo ali e que o dono da propriedade se assustou ao ver que alguém entrara sem pedir autorização. Disse que, assim que terminássemos, desceríamos para conversar com o dono.

Feito o trabalho de amostragem, entramos no carro e, chegando à sede, vimos um senhor branco, mas queimado de sol, com os cabelos grisalhos, no meio da estradinha de terra, empunhando uma espingarda. Sim, uma espingarda! Era o Sr. Sírio Henika, dono da fazenda. Depois dos momentos de rally na Bahia, esse foi o episódio que mais me deu medo durante a viagem. Durante uns cinco minutos, o líder da equipe tentou se desculpar e explicar o que estávamos fazendo ali. Sírio ouviu com atenção, impassível, sem tirar o dedo do gatilho. Mas, findos esses minutos, ele amansou, nos convidou para ficar na sombra e deitou de lado a espingarda, para meu alívio. Sírio disse que mais de uma vez bandidos entraram na fazenda dele, ou para roubar ou para fugir da polícia. Tinha que ficar de olho. Ele e sua espingarda.

A recepção já foi mais tranquila na Fazenda Branca, em Corretina, na Bahia. Vantagem de ter no carro um agrônomo que conhece a região e os produtores. Entramos na fazenda da família Schermack, que está no oeste baiano desde os anos 80, quando essa região começava a ser desbravada como uma nova fronteira agrícola. Os Schermack saíram de Panambi, no Rio Grande do Sul, em 1984. No Sul, a terra em que a família do Sr. Herberto plantava era quase toda arrendada. Quando soube das novas terras na Bahia, ele juntou a família, vendeu seu caminhãozinho e decidiu se arriscar no cerrado baiano, mais quente e mais incerto do que ele conhecia nos campos gaúchos.

Milho do bãoNo fim, deu certo. Hoje, a família de Herberto planta em seis mil hectares soja, milho, algodão e ainda cria algumas cabeças de gado. Com 57 anos, o Sr. Herberto deixa boa parte da lida com a terra nas mãos dos filhos Márcio, 31 anos, agrônomo, e Rafael, 27 anos, veterinário. Mas Herberto fica sempre por perto, gerenciando… Apesar da hegemonia das variedades transgênicas nas lavouras de soja, o agricultor diz que em 10% de sua lavoura, pelo menos, ele planta variedades convencionais. “É o que eu conheço melhor”, diz ele, dando claro valor à tradição. Mas confessa que, dentro de alguns anos, tudo será transgênico, não terá jeito.

Sr. Herberto, como todos (sim, sem exceção) os produtores que eu encontrei pelo caminho, reclamaram dos preços que estavam sendo pagos ao produtor nessa safra, que estão bem mais baixos do que os do ano passado. Eles esperavam ganhar mais nesse ano. Rodrigo acha que ficará no mesmo patamar do ano passado, quando a produtividade menor foi compensada pelos preços. Fagner estimou que terá lucro, mas menos do que ele estava esperando. Herberto disse que, com o que ele espera receber, dará para pagar as dívidas de safras anteriores, quando problemas como as condições climáticas ou doenças acabaram quebrando a produção, como aconteceu em 2004. “Espero, ainda, o dia em teremos um plano agrícola para o Brasil, para o produtor ter uma garantia de margem de lucro. Para plantar sem medo”, me disse Herberto.

Ainda não entendo dessas coisas de plano, subsídio, programas do governo e etc, mas acho que o que o Sr. Herberto espera é algo como o que eu vi hoje no programa Globo Rural, da TV Globo. O repórter visitou fazendas de leite na Suíça e contou que, lá, 40% da renda dos produtores vêm de subsídios do governo, que se interessa em manter o homem no campo. A principal renda do município que eles visitaram (não lembro agora o nome) vem da produção de um queijo especial, que depende, portanto do leite. Além disso, os subsídios servem para que os produtores preservem a paisagem da região e, assim, o turismo.

Sr. Herberto, como outros produtores brasileiros, não recebe subsídios nem pela sua lavoura, nem para manter os 20% de Reserva Legal da sua propriedade, por onde passa o Rio Linha Branca, lindo e límpido, com suas águas cristalinas e tom esverdeado. Mas ele é um homem do campo e do meio ambiente, reconhece o seu papel e parece fazê-lo com amor. Como me disse um produtor vizinho, “Schermack é daqueles que ouvem as plantas chorarem até de madrugada!”. Schermack e muitos outros que veem no campo não só o ganha-pão, mas um sentido para a vida. Ainda que eles (todos, sem exceção também) chorem todos os anos por conta do preço, ou do clima ou de qualquer coisa. Isso foi o que me ensinou um agrônomo: que agricultores sempre reclamam, e sempre exageram. Mas continuam lá, plantando e colhendo, todos os anos. O campo tem, de fato, os seus encantos e as suas compensações…

 

One Response to “Mundão véio sem portera – parte 2”

  1. Maravilhoso seu texto, Parabéns….
    já adicionei nos meus favoritos.
    De onde Você é?
    Pra qual veículo trabalha?
    Grande Abraços


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